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Cannes (7)/Okja! E só Varda para chamar Godard de ‘velho rato’

Luiz Carlos Merten

19 Maio 2017 | 09h34

CANNES – Nem se tivesse sido programado.
A projeção de Okja para a imprensaa, na manhã destas sexta, 19, já entrou para a história do festival. A vinheta mal saíra da tela quando entrou a marca ‘Netflix’. A vaias foi monumental. Prosseguiu na cena inicial, em que Tilda Swinton, na pele da CEO de uma companhia que se dispõe alimentar o planeta, faz um discurso política e ecologicamente ‘correto’. A falsidade salta aos olhos. Vaias, vaias, vaias. A sessão foi interrompida. Mais tarde, o festival apresentou suas desculpas – ao diretor, à equipe, aos produtores, ao público. Não pareceu menos falso. Cannes faz quantas projeções diárias? Tinha de dar problema justamente com a da Netflix, com a qual a organização anda às turras? A Netflix não cede. Provoca – vai lançar Okja nos cinemas da Coreia do Sul, terra do diretor Bong Joon-ho, nos EUA e na Inglaterra. Nada da França. e o filme é bom? É Bong Joon-ho. Claro!Três filmes da competição, e os três centrados na relação de crianças com o mundo. O garotop russo que cresce em amor, e som,e, em Faute d’Amour, as crianças surdas, e separadas pelo tempo, de Wonderstruck e agora a menina separada do seu animal gigante. Okja é uma superporca, produto da intervenção genética. Mika a ama e vai atravessar o mundo na tentativa de salvá-la de virar bacon. Ganha ajuda no percurso. Belos e estranhos filmes. Por que chora o garoto russo, Alyosha, em seu quarto? por se saber rejeitado pelos pais, talvez. E o que Mika secreta no ouvido de Okja? O que Okja lhe diz, também no ouvido e que não entendemos, no desfecho? Okja é uma criação em CGI. Adorável. Independentemente de premiação, Bong Joon-ho está feliz de que ‘ele’ – o presidente do júri, Pedro Almodóvar – veja seu filme na telas grande. A atriz (e produtora) Tilda cutucou – “Tantos filmes que já receberam a Palma e não chegaram aos cinemas por falta de distribuição…” E Jake Gyllenhaal, que faz o ridículo protetor de animais (na TV) – “A plataforma (Netflix) é uma dádiva porque permite que muito mais gente veja os filmes.” A discussão está longe de se encerrar. logo em seguida passou o que talvez venha a ser a ‘pérola’ dessa seleção. Visages Villages, fora de competição, de Agnes Varda e JR. A diretora e o artista visual, conceitual partem em busca de rostos e cidades. Paisagens humanas. Varda lembra o marido, Jacques Démy. Lembra encontros que Jacquot e ela tiveram no passado com Jean-Luc (Godard) e Anna (Karina). Ela resolve fazer um cadeau a JR. Leva-o para conhecer o misantropo Jean-Luc, que não abre a porta. Velho rato, Varda protesta. Inclassificável, Visages Villages está sendo a joia dessa seleção.