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Cannes! (7)/Dias dourados

Luiz Carlos Merten

16 Maio 2015 | 11h49

CANNES – E, afinal, não foi o Nanni Moretti, Mia Madre, a atração do dia. O filme é OK, com Margherita Buy fazendo a alter-ego do diretor – uma documentarista -, embora ele próprio esteja presente e, portanto, não precisasse dessa ‘representação’. Estamos no quarto dia do festival e, até algumas horas atrás, eu diria que os japoneses estão dando as cartas, com os novos filmes de Naomi Kawase e Hirokazu Kore-eda, e até o de Gus Van Sant, que não deixa de ser ‘nipônico’, naquela floresta (leia o post anterior). Mas aí veio o Arnaud Desplechin, da Quinzena dos Realizadores, que recuperei numa sessão do mercado e fiquei, como dizem os franceses, bouleversé. Trois Souvenirs de Ma Jeunesse, cujo título internacional é My Golden Days/Meus Dias Dourados -, talvez venha a ser mesmo o melhor filme de Cannes em 2015, como, de resto, disse o curador Edouard Waintrop a Desplechin, antecipando-se à avaliação do filme por Thierry Frémaux na competição e garantindo que ele seria recebido como um príncipe no Palais Stéphanie, sede da Quinzaine. Trois Souvenirs é um falso filme de memórias. Arnaud Desplechin finge que está sendo autobiográfico, mas na verdade está criando uma pequel para Comment Je Me Suis Disputé (Ma Vie Sexuelle). Cada uma das lembranças evoca filmes anteriores (La Sentinelle/Comment…/Esther Kahn) e documenta as pulsões adolescentes, contando a história desse garoto que quer ser herói e da garota que, vista pelos seus olhos, é excepcional, embora talvez não o seja. Encontrei-me com o diretor, que é sempre muito afetuoso comigo, mas ele sabe que amo seus filmes e compartilhamos o gosto de cinéfilos por John Ford e Ingmar Bergman. Conversei também com os atores, Quentin Dolmaire, que faz o protagonista, Paul Dedalus, e a sensacional Lou Roy-Lecollinet, a Esther, que olha para a câmera de um jeito, na derradeira cena, que evocou para mim uma linhagem de mulheres míticas que assombram meu imaginário, de Harriet Andersson, a Mônica do desejo de Bergman, até a Leila Diniz de Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos Oliveira. Já são quase 5 da tarde aqui e a programação que ainda resta hoje promete. A questão é que, como sempre, algumas coisas batem. A primeira parte das 1001 Noites de Miguel Gomes na Quinzena, Carol, de Todd Haynes na Competição e a versão restaurada de A Dama de Shangai, de Orson Welles, em Cannes Classics. E o documentário sobre Amy Winehouse, que desembarca na Croisette desautorizado pela família da artista. As 24 horas não bastam para preencher um dia em Cannes. Seriam necessárias mais umas 12, pelo menos.