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Cannes (7)/O que revela o ‘silêncio’ da brasileira Beatriz Seigner

Luiz Carlos Merten

11 Maio 2018 | 06h39

CANNES – Teria de pesquisar para ver exatamente de que ano é Bollywood Dreams, o longa anterior, de estreia, de Beatriz Seigner. A diretora brasileira está aqui em Cannes com Los Silencios, que acabo de ver, na Quinzena dos Realizadores. Após o filme, houve debate. Q&A. Los Silencios passa-se na fronteira da Colômbia com o Brasil. É interpretado por Marlene Soto. Na trama, ela é casada com Enrique Diaz, mas ele desapareceu com, uma das filhas do casal. Marlene segue em frente com os outros dois filhos, menino e menina, tentando conseguir o status de refugiada. O filme deveria terminar com um canto fúnebre, mas os índios foram intransigentes. Canto fúnebre exigiria um cadáver de verdade. A alternativa foi um canto de ressurreição. faz todo sentido. Los Silencios situa-se no quadro das negociações de paz entre o governo da Colômbia e as Farc. De alguma forma, e através de uma dimensão fantástica – Enrique Diaz fica circulando pela casa, mas não estará morto? -, o filme dá voz aos desaparecidos. Beatriz trabalhou na fronteira, não apenas como um lugar geográfico. Trabalhou na fronteira do documentário e da ficção, da luz e da sombra – na fronteira das almas. Não creio que seja um grande filme, mas ilumina questões pertinentes. Até onde sei, foi o governo Lula que abriu a fronteira nessa região, e hoje essa migração não cessa de crescer. Fiz uma rápida pesquisa e descobri que se trata da segunda, atualmente, no País. Espero não ser fake news. Beatriz contou que esperava filmar num bairro da periferia de Manaus, mas ele foi destruiído nois preparativos da Copa anterior. Foi então que ela desobriu a Ilha da Fantasia, sobre o Amazonas. É uma paisagem em permanente mutação. Chove muito, o nível do rio sobe. E como dizem os índios, a floresta te faz enfrentar os medos interiores. Foi o que achei mais bonito em Los Silencios. Apesar da importância da paisagem, acho que o filme se passa ‘dentro’ dos personagens. Quem são essas pessoas? Beatriz e seu elenco fazem sua parte, mas nós, o público, temos de preencher os buracos da história. Realidade ou ficção? Nesse lugar perdido entre países (também o Peru), uma grande corporação quer expulsar os habitantes para construir um cassino resort. Oferece pouco dinheiro, e com a oferta vem a ameaça – o Exército, grupos paramilitares, a Justiça, todos estão do lado dos poderosos. Um grande festival como Cannes proporciona essas descobertas, essas alegrias. Penélope Cruz pode ser gloriosa no tapete vermelho, mas aí, numa obscura sessão, às 8 e pouco da manhã, jornalistas de todo o mundo se levantam para aplaudir uma também obscura, mas muito boa, atriz colombiana. Marlene Soto viveu seu momento de glória. O cinema, não me canso de repetir, é uma coisa maravilhosa.