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Cannes! (4) Esplendor do preto e branco

Luiz Carlos Merten

14 Maio 2015 | 12h59

CANNES – E o preto e branco inundou as telas de Cannes com a sombra das mulheres de Philippe Garrel e a versão restaurada de O Terceiro Homem, de Carol Reed, em Cannes Classics. Confesso que não vi o segundo, só o começo para conferir a qualidade da restauração. Renata de Almeida, por favor – una a Mostra às homenagens que Orson Welles está recebendo em seu centenário de nascimento e leve o filme para São Paulo. Sempre li que Welles teria supervisionado o longa, mas no livro com as discussões que teve em seus almoços com o cineasta Henry Jaglom – My Lunches with Orson -, o grande diretor manifesta respeito por Reed como criador, ao mesmo tempo que minimiza a escrita de Graham Greene, e esclarece. O filme não é baseado no roteiro que Reed escreveu a partir de seu livro, mas o roteiro, que era original, virou livro depois. A luz e sombra do filme, maravilha! Philippe Garrel parece cria de François Truffaut, na medida em que, como ele, acredita no amor como tema motor da vida e da arte. L’Ombre des Femmes é sobre um casal de documentaristas que termina por se perder tentando permanecer unido. O próprio selecionador da Quinzena dos Realizadores, que o filme abriu, deu entrevista dizendo que era o melhor Garrel em 20 anos, pelo menos. Eu acho que o que faz a diferença é o ator. Philippe tem filmado muito com o filho Louis Garrel, que é ótimo, mas ao escolher Stanislas Mehrar – que sei que conheço, mas teria de pesquisar para saber de onde -, ele fica menos comprometido ou se permite ser mais crítico com o personagem, submetendo o ator a cenas que talvez não fizesse com o filho. Garrel filmou em ordem cronológica, confiando a imagem em P&B a Renato Berta, grande diretor de fotografia que segue a tradição da nouvelle vague – e ele trabalhou com Jean-Luc Godard, Alain Tanner, Jean-Marie Straub (e Danièle Huillet). Lembro-me que Truffaut disse certa vez que os filmes em preto e branco eram mais bonitos. Vendo o Garrel e revendo (parte) do Carol Reed, pensei com meus botões – e não é que ele tem razão?