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Cannes (18)/Lars que, fisicamente, não é mais quem era

Luiz Carlos Merten

17 Maio 2018 | 12h24

CANNES – Quem me lê no impresso já sabe. Venho há este festival desde 1992 – deixei de vir dois anos por decisões editoriais, das quais não me queixo. Acho que foi logo de cara, no primeiro anmo, que entrevistei Lars Von Trier. Desde então, o tenho acompanhado, até quando virou persona non grata na Croisette e foi mostrar Ninfomaníaca em Berlim. Tomei um choque ao entrevistá-lo na quarta pela manhã. A assessora, Liz Miller, percebeu minha perturbação e redobrou a atenção, ela que já estava preocupada com minha bengala e o excesso de escadas na villa dos altos de Cannes. Achei que fosse Doença de Parkinson. Lars está falando devagar, com dificuldade. A mão treme, os movimentos são rígidos. O que está acontecendo? Liz lembrou que ele sempre sofreu de ansiedade e depressão. O excesso de drogas desencadeia efeitos colaterais, que necessitam de novas drogas. O resultado é aquela devastação física que me derrubou. De cabeça, está ótimo. The House That Jack Built. Jack é um serial killer. Cometeu 60 crimes em 12 anos, está prestes a fazer sua 61.ª vítima. E, ao mesmo tempo que mata, ele tenta construir uma casa. Não consegue. A casa, quando sai, é a própria arquitetura do horror. O filme é forte, autoral. Muita gente não aguentou e saiu. Lars admite que, como artista, adora provocar. Diz que talvez esteja perdendo a mão – ‘Saíram umas 100 pessoas, nos meus áureos tempos teriam saído 200.’ Confesso que foi a minha hora de sentir depressão. Lembrei-me dos relartos sobre a decadência física de Luchino Visconti, em fim de carreira, quando se sentia abandonado, e traído, por seui grande amor, Helmut Berger. Vamos ter asssunto quando voltar, ou quando estrear, A Casa de Jack.