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Cannes! (14)/Habemus Palmam

Luiz Carlos Merten

20 Maio 2015 | 09h25

CANNES – Confesso que estou jogando minhas  fichas no Hou Hsiao-Hsien, O Assassino, cuja sessão paras a imprensa ocorrerá esta noite. Embora o Jia Zhang-ke, Mountains May Depart, tenha provocado comoção ontem à noite, não me convenceu muito.  quarto filme do autor chinês na competição também é seu primeiro melodrama, acompanhando um reduzido grupo de personagens para fazer uma espécie de crônica das transformações ocorridas na China capitalista. O relato estende-se até um hipotético ano 2025, acompanhando amigos divididos por escolhas erradas e uma família separada pelo dinheiro. É tudo muito pesado – o filho chama-se Dólar e a cena inicial e a final colocam go West! na trilha, mas dançada de diferentes maneiras. Confesso que, na segunda vez, achei boba, mais que despropositada, uma daquelas falsas boas ideias para ‘levantar’ o público combalido. Hoje pela manhã – estou cinco horas à frente, não se esqueçam – veio Paolo Sorrentino, Youth. Dois velhos artistas – um maestro que se aposentou e um cineasta que tenta realizar o último filme, que será seu ‘testamento’. Michael Caine e Harvey Keitel. O filme é reiterativo. Durante duas horas, Sorrentino fica dizendo a mesma coisa. Depois de uma hora, Youth/Juventude ainda não começou e depois não termina nunca. Por mais que dissesse que não, Sorrentino, em A Grande Beleza, dialogou com A Doce Vida e agora encara outro Federico Fellini, Oito e Meio, a crise do artista. Se esses dois filmes fossem parte de uma trilogia, como parecem ser, qual seria o terceiro – Amarcord? E como seria o Amarcord de Sorrentino? Sem dúvida que ele cria cenas belas, mas quem aguenta duas horas de quadros de invenções visuais? Sentei-me ao lado de Tiago Stivaletti na sessão e ele compartilhou o mesmo enfado. Sorrentino virou um gênero. Orlando Margarido e Carlos Eduardo, de Londrina, amam esse gênero. Sejam felizes, mas não contem comigo. Jane Fonda faz uma diva. Demora uma hora e meia para aparecer, fica cinco minutos em cena e vomita boa parte da exasperação que a auto-indulgência de Sorrentino provoca na gente, em mim, pelo menos. Mas o júri é capaz de se impressionar. O filme tem a cara de Rossy De Palma, como um Pedro Almodóvar requentado da era da movida. Pensei no outro dia em quem os irmãos Coen, na presidência do júri, poderiam votar? Em Nanni Moreti. John Turturro, a eles ligado, tem uma bela cena de dança em Mia Madre, e o filme que me parecia só um bom Moretti agora está ficando ótimo. Brinquei hoje com o Tiago. Eu, no júri, votaria para que a Palma de Ouro não fosse outorgada. Não a daria para o favorito Carol, de Todd Haynes, por mais que goste do diretor, nem com banda de música. Não é verdade – habemos Palma(m). Demorei para ver – no mercado – o húngaro O Filho de Saul, de Laszlo Nemes, que perdi no primeiro dia. Essa (re)visão do Holocausto me parece até agora o único filme palmarizável. Nas demais seções, encontro filmes que me atraíram muito mais – Os Dois Amigos, de Louis Garrel, na Semana da Crítica, e o Arnaud Desplechin (Três Lembranças da Minha Juventude) e o Miguel Gomes (As 1001 Noites) da Quinzena dos Realizadores.