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Cannes (14)/Mon Cher Enfant

Luiz Carlos Merten

13 Maio 2018 | 18h38

CANNES – Todo ano há uma disputa feroz entre a seleção oficial e a Quinzena dos Realizadores, para ver quem apresenta os melhores filmes do festival. Há dois anos, em Berlim, o tunisiano Mohamed Ben Attia recebeu dois Ursos de Prata – melhor ator e melhor primeiro filme. Gostei demais de Hedi e, no meu imaginário, esse filme ainda ganhou uma dimensão especial. Estava no aeroporto – Tegel – e cheghou o diretor com os dois troiféus. Cumprimentei-o e aí vi que José Carlos Avellar e a mulher também estavam embarcando. Partiam de férias para a Espanha. Logo em seguida Avellar morreu. Foi a última vez que o vi, e esse simbolismo ficou associado ao Ben Attia. Hoje, ele mostrou aqui na Quinzena seu segundo longa – Mon Cher Enfant. Um retrato de família. Pai, mãe e o filho que faz vestibular – son bac. O garoto passa mal, e os pais pensam que é estresse. É, mas não pelo bac. Sami, de forma clandestina, parte para a Síria, para se juntar aos djihadistas. A família desmorona. Mas o filme não é só sobre isso. É sobre como, muitas vezes, interpretamos os signos de forma errada, vendo só o que queremos ver. De novo gostei muito de Mon Cher Enfant. Na atual quadra da minha vida, em que tudo parece estar desmoronando – um dia, quando passar, conto essa história -, tenho a impressão de que era o filme que precisava ver. Como Riadh, o maravilhoso protagonista de Ben Attia, conseguirá dar a volta por cima, porque é sempre isso que interessa e que conta. Tentei dar uma passada pelo Cinema da Praias, para ver a versão restaurada de El Massir, O Destino, de Yussef Chahine, mas não consegui. Não me lembro, nesses 20 e tantos anos que venho a Cannes, de um festival assim tão frio. Em geral, no primeiro fim de semana, já está um calor danado. Não esse ano. Só um filme como o de Ben Attia para, malgré tout, me aquecer o coração.