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Cannes (10)/Um ano na vida de Bergman

Luiz Carlos Merten

12 Maio 2018 | 11h43

CANNES – Às 7 da noite daqui, 2 no Brasil, teremos a sessão de O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues, na Salle du 60ème. Agora, acabo de assistir, em Cannes Classics, ao documentário Bergman – A Year in a Life, de Jane Magnusson. Ainda não encontrei Renata de Almeida, mas vou exortá-la o levar o filme para a Mostra. Para bergmanianos de carteirinha, vai ser um choque, como foi para mim. Ontem, Cannes Classics já mostrara a versão restaurada de O Sétimo Selo. Vi só um pedaço, para conferir. Deslumbrante! O ano em questão, na vida de Bergman, foi o de 1957. Ele fez dois de seus clássicos – Sétimo Selo e Morangos Silvestres -, mais um telefilme e quatro montagens de peças importanters, incluindo O Misantropo, à qual só voltaria 40 anos depois, no fim da vida. O próprio Bergman contesta a importância do ano e que Sétimo Selo e Morangos sejam melhores que outros filmes. Bergman era um gênio e era um monstro. Era movido a testosterona, filmando, chega a admitir, para ‘encontrar’ as atrizes. Uma delas chega a admitir que um set de Bergman era sempre um desfile de mulçheres grávidas, parindo e as que ele estava de olho para engravidar. Ele já era casado quando iniciou o affair com Liv Ullman, e imultaneamente teve outra, com quem casou e viveu 25 anos. Quyando ela morreu, foi como se Bergman tivesse morrido (também). Isolou-se, e viveu, como uma versão masculina da Garbo, a mais solitária das vidas. É de cortar o coração ver Liv chorar dizendo que nunca teve um amigo melhor nem mais leal. Questão de ponto de vista. O célebre episódio do Fisco, quando ele chegou a ser preso sob suspeita de sonegação de impostos, fez aflorar o pior em Bergman. Tornou-se prepotente, autoritário e usou seu prestígio como diretor de teatro e cinema para infernizar a vida dos outros. Você não espera uma coisa dessas de um Bergman. A natureza humana! Estou, repito, em choque. Filme belíssimo, revelador. Só estou aqui sofrendo porque, na hora do Cacá, vai ter o documentário sobre Jane Fonda, em Cannes Classics. Adoraria ver, mas o dever me impõe O Grande Circo. Como repórter, sinto que tenho de estar lá, mesmo já tendo visto o filme.