As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cannes (1)/E o festival começa hoje, com novas regras

Luiz Carlos Merten

08 Maio 2018 | 08h06

CANNES – Cá estou na Côte d’Azur para o 71.º Festival de Cannes. Mais um festival – menos um festival, como pensava o Mário Peixoto. Vim cheio de medo, por causa da perna. No domiongo, quando embarquei no Brasil, se completava um mês da cirurgia. Tomei medicamento para evitar a trombose, fiz um pouco de exercício. Cheguei! Pronto para as novas regras do evento. A essa hora, no ano passado, já estava assistindo ao filme de a abertura, que, como toda a programaçãso, passava antes para a imprensa. Pelas novas regras, veremos os filmes da seleção oficial – competição + apresentações especiais – ao mesmo tempo que o público do palais. Isso significa que, às 2h30 da tarde daqui – 10h30 da manhã no Brasil – teremos a coletiva do júri e só à noite, 19 h na França, 14 h aí, veremos/verei o thriller o língua espanhola de Asghar Farhadi, Everybody Knows, Todos lo Saben. No hotel já me esperava o sac – a bolsa – do festival, com a credencial (a branca!, com direito a soirée) e os catálogos. Se entendi direito, Figaro, o tradicional jornal francês, circula a partir de hoje somente online. Na capa da última Madame (Figaro), a revista feminina da publicação, Cate Blanchett, fotografada por Tom Munro. M. la Présidente. O que esperar do júri presidido por ela, nesse momento de revolução das mulheres no cinerma, e em Cannes? Cate lembra que só veio antes do festival para defender algum filme. Nessas condições, não havia tempo nem condições de se interessar pelos filmes dos outros. Agora, como presidente do júri, seu olhar estará distribuído pelos outros, visando o todo. Lembranças – o cinema surgiu na sua vida quando o pai a levava para ver westerns. Em Cannes, sua maior emoção foi integrar a galáxia Steven Spielberg, mostrando Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. É adepta do #Me Too, porque ‘essa libertação da palavra gerou uma mudança tradicional dos costumes a nível mundial, alimentando um debate que não pode mais ser reduzido a casos individuais’. Estrelas que ganham milhões falando em nome de mulheres comuns? ‘Sim, temosessa chance de dar voz às reivindicações de centenas de milhares de mulheres que trabalham na mesma indústrias, mas sem a mesma visibilidade. A questão é encarar a representatividade, pensar no todo e não apenas nos benefícios indiviiduais.’ Representatividade… As mulheres são subrepresentadas no cinema? Em Cannes? Na competição, elas são três – Eva Husson, Alice Rohrwacher, Nadine Labaki – num total de 21 títulos, ou seja um sétimo! Thierry Frémaux, que faz a seleção, diz que a questão nunca foi de gênero, mas de qualidade. Tudo isso – o gênero, a representatividade, a qualidade – estará sendo debatido aqui em Cannes até o dia 19, na atribuição dos prêmios. Com medo da greve da Air FRasnce, mudei minha passagemj no último momento e vim pela TAP. Bem que gostaria de ter parado erm Lisbosa. No fim de semanas, terminei o Indie Lisboa, com tríplice vitória brasileira. Baronesa, de Juliana Antunes, e Lembro Mais dfos Corvods, de Gustavo Vinagre, dividiram os prêmios principais, e O Processo, de Maria Augusta Ramos, venceu o prêmio do público. O longa de Maria Augusta estreia na quinta da próxima semana no Brasil, reacendendo a incômoda discussão sobre o impeachment da presidente Dilma Roussef. Até o guru da direita, Olavo de Carvalho, concorda que foi golpe, mas ainda tem gente que prefere fingir que não. Nesse final de semana também se comemoraram os 200 anos do nascimento de Karl Marx – amei o filme de Raoul Peck – e The Economist, não o A Hora do Povo, diz que o pensamento dele continua ‘surprinsingly relevant’. The Economist insiste sobre dois pontos – o precariato da mão de obra e o surgimento ‘inevitável’ dos monopólios, dos quais Google e Facebook são a atual encarnação. A permanência de Marx é tema de editorial do Figaro numa página ímpar, à direita – haverá simbolismo no fato de ser a última edição impressa?, e à esquerda, espelhado, o sociólogo Gérald Bronner comenta as fake news dizendo que a internet, que deveria nos salvar (sou eu, refletindo), ‘amplifica a tirania das minorias ativas’. Ó céus! Volto ao festival, o maior do mundo. Vamos ver se, ou de que forma, tudo isso estará refletido na seleção de Cannes 2018.