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Luiz Carlos Merten

18 Maio 2007 | 07h52

CANNES – Encontrei agora de manhã o Rodrigo Fonseca, crítico carioca, indignado porque havia assistido ao pior filme da história da civilização ocidental. Falava de Les Chansons d’Amour, que acabáramos de ver. Tirei o maior sarro – que é isso? Ficou nervoso por que a bichinha foi tão persuasiva que ganhou o machão em cena? Christophe Honoré pode ter feito o primeiro musical completamente gay da história do cinema. Os outros, ou a maioria, pelo menos, também são, mas fingem que não. Honoré, autor de um filme cultuado pela crítica francesa – Dans Paris, com Louis Garrel, de Os Sonhadores e Amantes Constantes, e Romain Durys -, foi muito marcado por Os Guarda-Chuvas do Amor, filme todo cantado de Jacques Démy que ganhou a Palma de Ouro em 1964. Ele já havia criado uma cena musical para homenagear Démy em Dans Paris. Encorajado pela reação da crítica e do público, ampliou a experiência. Seu musical divide-se em três movimentos, A Partida, A Ausência e O Recomeço. No primeiro, Louis Garrel vive a três com duas mulheres, mas uma delas, Ludivine Sagnier, morre do coração. Ele surta, entra em crise, faz uma bad trip. Chiara Mastroianni, filha de Catherine Deneuve – que (en)cantava nos Guarda-Chuvas -, é a irmã de Ludivine, que faz todo um movimento de aproximação com Garrel, mas ela tromba com o gayzinho que, tanto faz, que ganha, como se diz, o bofe, com direito a beijo de língua e esfregação de cueca na cama. Les Chansons d’Amour vai revolucionar o musical como Os Guarda-Chuvas? O filme tem uma trilha maravilhosa (de Alex Beaupain) e foi muito aplaudido no fim da sessão para a imprensa, mas não havia muita gente na coletiva, talvez porque ela trombasse com o novo filme de Olivier Assayas (Boarding Gate) e com um documentário de três horas sobre Marlon Brando. Cristophe Honoré rejeita essa história de filme gay. Louis Garrel diz que cantar foi mais difícil que beijar o coleguinha de elenco. E os dois acham que Canções de Amor não é sobre gays, heteros nem bissexuais. É sobre gente que tem dificuldade para expressar seus sentimentos e que arranja a forma de fazê-lo. Brokeback Mountain já era. O negócio, agora, é Les Chansons d’Amour.