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Cultura » Canções, a minha, a sua?

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Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2011 | 23h01

RIO – Há sempre alguém que canta nos filmes de Eduardo Coutinho. ‘My Way’ em ‘Edifício Master’, aquela mulher que enrola um inglês imaginário em ‘Babilônia’. Aqui, 18 pessoas, homens e mulheres, cantam as canções de suas vidas e contam histórias a elas relacionadas. Histórias de amor, de afeto, de abandono, de culpa. Me joguei de cabeça em 17 dos depoentes, ri, chorei, foi uma experiência e tanto. O velho – Coutinho me pareceu fragilizado, magrinho e com o cabelo mais branco que nunca – acertou, mais uma vez. Seu longa, nem tão longo, 80 minutos, foi precedido pelo curta ‘Uma Visita para Elizabeth Teixeira’, de Susanna Lira. Foi emocionante ver surgir no palco do Odeon a própria Elizabeth, com seu discurso que a muitos parecerá anacrônico, em defesa da reforma agrária e da reorganização social do campo. Sentado com André Miranda e Ana Luiza Müller, eu mesmo fiz piada. Elizabeth pegou o microfone e, com aquele privilégio dios velhos, desandou a falar que não parava mais. Chega! Queremos o filme. ‘Visita’ é cria de ‘Cabra’, sem ser tão bom e eu confesso que vacilei. É tanta coisa que me deveria fazer concordar com o culto ao Coutinho de 1984 (ou 85), mas eu sou teimoso e prefiro o João Moreira Salles viscontiano de ‘Santiago’. Aliás, é essa dimensão viscontiana que também me atrai em ‘Meu País’, o longa de André Ristum que faz daquela casa uma ilha e daquela ilha o Brasil para o autor que, durante tanto tempo, viveu dividido entre Brasil e Itália e agora faz sua opção definitiva numa saga intimista e familiar. Ainda falta o documentário sobre Marighella, que terá de ser muito bom para vencer ‘As Canções’. Fiquei pensando qual seria a minha canção. ‘Juízo Final’, por motivos que já enumerei aqui? ‘Oceano’?’Coração de Estudante’? Ou o eterno Roberto? ‘Revejo a casa com varanda/Muitas flores na janela…’ E a sua, amigo/amiga, qual é? Estamos falando de música brasileira. Voltei ao hotel, tinha texto para redigir. Havia feito os filmes na TV de domingo, mas a página copiada era velha e eu terminei tendo de jogar fora boa parte do material que havia produzido. A consequência foi que perdi a hora e ‘Corações Sujos’. O longa de Vicente Amorim encantou para mim. Não consigo vê-lo. Vou insistir,porque ainda tem sessões acho que amanhã e sábado. Agora estou indo ver ‘Shut Up Little Man’, na mesma sala em que vi ontem ‘Finisterrae’. Dois fantasmas que sonham virar gente fazem o Caminho de Santiago rumo a Fisterrae. Um mundo sem começo nem fim, um deles montado num cavalo que, às vezes, é de pau e tem uma cabeça giratória. Numa cena, ele pega um sapo, que beija, e era uma fêmea que vira uma linda mulher. No final, o próprio diretor Sergio Caballero recita os nomes dos integrantes de sua equipe. A plateia ria diante do nonsense, mas tudo aquilo, no fundo, fazia um sentido. E lá vou eu. O cinema me chama.