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Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2010 | 12h11

BRASÍLIA – Tenho certeza de que já fiz um post com este título, que evoca um filme de Ermanno Olmi. Terá sido sobre o próprio Olmi? Vamos começar do princípio. Olá! Aqui estou, desde ontem. Cheguei no final da tarde, ou início da noite, depois de ter perdido meu voo. Tinha muitas matérias para a edição de hoje do ‘Caderno 2’, inclusive a capa, sobre a ofensiva europeia, reunindo três ciclos que começam hoje em São Paulo – a Semana Pirelli de Cinema Italiano, com filmes inéditos, e as mostras do novo cinema francês e de filmes poloneses, também inéditos. No total, serão mais de 20 filmes, 25 ou 26, que o cinéfilo poderá ver durante sete dias. Como na Mostra de São Paulo, será precido escolher, claro. Dos italianos, sugiro que não percam ‘Mine Vaganti’, do turco/italiano Ferzan Ozpetek, que me encantou quando o vi, no Festival do Rio, e ‘Questione de Cuore’. Ainda não vi o filme de Francesca Archibugi, mas achei a história interessante – um homem que está morrendo tenta transferir o afeto de sua família, a mulher e o filho, para outro – e também adorei o ‘bello’ Kim Rossi Stuart, a quem entrevistei quando ele esteve no Brasil, na semana passada. Puta cara bacana e os papéis que ele mais gosta são os de pais – o pai do garoto deficiente de ‘As Chaves da Casa’,. de Gianni Amelio; o marido abandonado pela mulher, que prefere ser puta, e ele cria o filho sozinho, em ‘Anche Libero Va Bene’, que também dirigiu; e agora esse pai que renuncia à própria paternidade, no filme da Archibugi. Kim Rossi Stuart é super gente fina. Volto amanhã para São Paulo e espero assistir a ‘Questão do Coração’, ou de afeto, mas tem de ser logo, porque na segunda será dia de correr atrás de Francis Ford Coppola, que vem para apresentar ‘Tetro’ na FAAP. Cheguei ontem a Brasília e já corri para o cinema, para assistir aos concorrentes da terceira noite do 43º Festival do Cinema Brasileiro. Foi aquela enxurrada no palco, todo mundo elogiando o cinema de invenção. Ótimo, eu também gosto, quando é bem feito, mas não desqualifico o cinema de mercado. Seria muito fácil – maniqueísta – dividir a produção cinematográfica em filmes de ‘invenção’, bons, e de ‘mercado’, ruins. Feliz ou infelizmente, as coisas não são assim e eu confesso que surtei com o primeiro curta da noite, o ‘Angeli’, de Beth Formaggini. Foram os 25 minutos mais longos de minha vida. Em compensação, viajei em ‘Transeunte’, de Eryk Rocha, mal sentindo passar as mais de duas horas do filme (que anunciavam como tendo 100 minutos). Eryk conta sua história quase sem diálogos, por meio da imagem (em preto e branco) e da trilha (formada por ruídos e canções, muitas ‘bregas’). ‘Transeunte’ é uma ficção nas bordas do documentário, mas construída de tal maneira que a observação da vida – da rua, principalmente – é incorporada a uma estrutura narrativa que me pareceu muito pensada. Houve quem achasse o filme longo. Tinha gente querendo cortar 20/40 minutos. Espero que não da parte ‘musical’, que me pareceu irretocável. E justamente – cortar o quê? Ocorre muita coisa ou não ocorre nada, depende do ponto de vista e o que importa é essa dilatação do tempo e do espaço, que, com todas as diferenças entre ambos os filmes e autores, me fez lembrar do ‘Andarilho’ de Cao Guimarães. O filme acompanha esse velho solitário que busca – o quê? – na cidade grande. Ele caminha sem parar, um andarilho, atrás de um sentido para a vida? Nem tanto. Atrás da mulher amada, depois que a mulher dele morreu. Chorei quando na lápide do cemitério se vê a foto da falecida e é Teuda Bara, do grupo Galpão, grande atriz mineira e brasileira, como também é um grande ator Fernando Bezerra, que faz o transeunte. Vou voltar ao filme. Esta é uma primeira e rapidíssima impressão. Hoje, já tive os programas de rádio em São Paulo e Salvador, os filmes na TV de amanhã do ‘Estado’ e ainda me aguardam matérias para a edição de domingo, que fecha à tarde. Mas eu volto ao ‘Transeunte’.