As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Camila e a Glória. A glória de Camila?

Luiz Carlos Merten

01 Abril 2017 | 09h49

Na entrevista que sai amanhã, domingo, no Caderno 2, Camila Pitanga fala de Era o Hotel Cambridge e da impressão que lhe causou o grande filme de Eliane Caffé. Ela me falou também de Baronesa, mas não consegui incluir o filme de Juliana Antunes que venceu a Mostra Aurora deste ano. Gostei demais do Baronesa e, em Tiradentes, houve um movimento inicial de rejeição, ou de pelo menos colocar em xeque o fato de que a diretora branca e de classe média estava falando de mulheres negras e de periferia, como se não tivesse o direito. Camila, como mulher e negra, artista-cidadã que é – volta e meia, Dib Carneiro, que a segue no Face, diz que Camila postou isso ou aquilo, sempre atenta ao momento de retrocesso que vivemos no País -, fez a defesa da diretora. Grande Camila. Tenho a maior admiração por seu talento e beleza. E como tenho idade para ser seu pai, trato-a como ‘menina’. Deve ser alguma forma de gauchês – todo mundo com metade da minha idade é menina, menino. Camila, em nenhum momento agressiva comigo, disse que entende meu sentimento de proteção, mas não é frágil e já é uma mulher de 40 anos. Quem me dera os meus 40 anos de volta – nãããoooo, os 71 estão legais. Foi um fim de tarde muito gostoso na quinta-feira, conversando no hotel com ela, Beto Brant e o mítico Antônio Pitanga, que me fez a ponte, não apenas entre o filme dele, sobre ele, e o Cinema Novo do Eryk Rocha, mas também o Eu não Sou Seu Negro, de Raoul Peck. Adoro quando Pitanga diz que não pertence ao movimento negro, mas é um negro em movimento – o próprio. Esse homem deu um corpo, uma identidade ao Cinema Novo, foi arauto dos novos tempos – bradando, para Cacá Diegues, que o carnaval ia chegar – e tem coragem de ainda se declarar PT sem que ninguém ouse atacar sua integridade. Ontem, estava na redação redigindo os textos e correndo atrás da Carolina Ferraz, para falar sobre o seu papel de travesti em A Glória e a Graça, dirigido por seu amigo Flávio R. Tambellini, mas que é um projeto dela, pelo qual batalhou durante nove anos. Com que direito uma atriz que só faz aquelas mulheres chiques e glamourosas nas novelas… Carolina nem me deixou formular a pergunta e já estava retrucando – “E você acha que por isso são fáceis de fazer?” Ia justamente observar isso, que talvez não fossem, e as circunstâncias da entrevista foram muito reveladoras. Carolina estava ontem com a filha doentinha – uma virose. Havia saído do médico, estava sem babá, a menina queria atenção e ela no telefone, falando com o jornalista chato. Típica dupla, tripla jornada feminina. A Glória era uma personagem pela qual Carolina se apaixonou, que queria fazer e se preparou para isso. Em Berlim, em fevereiro, tivemos o filme chileno de Sebastian Lelio, Una Mujer Fantástica, sobre a luta de uma transgênero para fazer o luto por seu companheiro. O papel era interpretado por uma trans, a fantástica Daniela Vega, e havia a expectativa de que ela recebesse o prêmio de melhor atriz, mas o júri preferiu a sul-coreana Kim Minhee, do Hong Sang-soo, On the Beach at Night Alone, que amo. (Caraca, me veio agora o nome da Daniela, mas ontem tive de pesquisar e coloquei outro nome no texto. M…) Foi preconceito? Lelio defendeu que papeis de trans sejam feitos por elas. Faz todo sentido, mas com uma trans de verdade, e não uma cis, A Glória e a Graça talvez nunca tivesse saído do papel. Eu fico nessas dúvidas – uma trans seria melhor que Carolina? Pode até ser, mas tenho o direito – como? Qual? – de lhe negar um papel do qual ela se apossou? Honestamente, nunca vi um grande filme do Tambellini, e A Glória e Graça também não é. Mas ele é um diretor que tem ofício, faz coisas interessantes (às vezes com excessiva prudência) e, no limite, seu novo filme levanta questões da maior atualidade. A nova conformação da família. Pedro Almodóvar, Tudo Sobre Minha Mãe. O filme de 1999 passa nesse fim de semana na TV paga. Fiz um destaque de TV no jornal, enquanto esperava o telefonema da Carolina. Inconscientemente, talvez estivesse me preparando. Fui pesquisar a ficha técnica, queria saber o nome do garoto, do qual não me lembrava (Eloy Azorín). Descobri que uma das travestis é uma mulher, Antonia San Juan, e também não me lembrava disso. Se Almodóvar pode… Estou na maior expectativa pela seleção de Cannes neste ano. Com Almodóvar na presidência da júri, Thierry Frémaux, para estar à altura, tem de propor uma seleção bem transgressora. Me pego pensando – se Pedro, e não George Miller, fosse presidente no ano passado, Ken Loach (Eu, Daniel Blake) teria levado a Palma?