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Luiz Carlos Merten

10 Março 2010 | 09h04

Cheguei cedo hoje no jornal. quer dizer, chego normalmente, mas hoje cheguei mais ainda, porque deu a louca nos relógios da minha casa e eu não sabia em qual confiar. Queria, quero, postar alguma coisa sobre a programação especial das salas administradas pela Secretaria Municipal de Cultura – Sala Olido, Biblioteca Roberto Santos etc -, mas não resisto a fazer antes uma, aliás, duas observações, que não estão necessariamente ligadas (mas talvez estejam). Havia visto ontem ‘Um Sonho Possível’, baseado numa história real, sobre como esta mulher – Sandra Bullock – acolhe e transforma em filho o garoto negro, enorme, com a força de um brucutu e a alma de um passarinho, de tão gentil. O garoto é zero por cento em todos os in dicadores de cultura e informação, mas 98% ativo (e esperto) em instinto, não de sobrevivência, mas de proteção. E ele vira um atleta – jogador – imbatível quando assume o time como uma família que precisa defender. A ideia do filme é que um gesto pode fazer a diferença, que as pessoas só precisam de apoio para se sobressair e isso é, para usar um jargão antigo, ‘reformismo’, para aplacar a má consciência, não revolução. Mas o filme produz certa euforia, a sensação de sonho possível é real. Pois bem. Cheguei aqui e vi na TV as primeiras imagens da manhã. Bom-dia, mundo. Na Austrália, as câmeras flagraram jovens atacando um cadeirante. As imagens mais chocantes foram suprimidas, porque eles bateram com um pau, uma barra, sei lá o quê. Confesso que fiquei deprimido. Pensei no Sam Worthington, astro de ‘Avatar’, que faz o cadeirante que, em Pandora, como cobaia das experiências da cientista Sigourney Weaver, tem sua  mente transferida para o corpo do nativo, o na’vi, e a primeira cena, quando ele experimenta a sensação de correr, de novo senhor dos seus membros, a euforia é indescritível. James Cameron já havia criado esta cena antes, como roteirista, mas quem filmou foi sua ex, Kathryn Bigelow, em ‘Estranhos Prazeres’ (Strange Days). O cinema nos permite sonhar, vivenciar – por meio da identificação projetiva – experiências alheias e eu, como todo mundo, às vezes me abvorreço com essa coisa do politicamente correto. Mas não é uma questão de ser correto, nem mesmo ético. É a regra básica da civilidade. Só o que falta é sair batendo a torto e a direito. E no deficiente, aquele bando de marmanjos. Que diabo de frustração leva as pessoas – algumas – a descontarem desse jeito? A metáfora da transformação de Worthington em na’vi é muito bonita – e eu prefiro ‘Avatar’ a  ‘Guerra ao Terror’, o que não me impede de achar interessante, até no que tem de polêmica, a vitória de Kathryn no Oscar. Fiquei pensando que raio de mundo é esse. Cameron pode ser um sonhador, com seus na’vis que derrotam a máquina de guerra, colocada em ação, como diz o Tom Capri, pelo homem-capital, aquele que vive sonhando com poder e dinheiro e que coloca em risco a própria sobrevivência do planeta. E para que as pessoas querem, necessitam, de tanto dinheiro? Para consumir. Sei que estou simplificando, psicanálise de almanaque, mas prefiro pensar, Deus me livre, que seja a frustração, a consciência da própria impotência – e não algum mal profundo, enraizando no íntimo desses bárbaros -, que leva essa gente a agredir no outro a própria fraqueza. Deprimi. Me deu vontade de voltar hoje ao Imax e rever meu filme de ‘menino’, o ‘Avatar’. E não creio, se o fizer, que vou estar m,e ‘alienando’. Por falar nisso, James Cameron, o próprio, é esperado no Brasil, no fim do mês, a menos que também ele  tenha se deprimido – com o resultado do Oscar – e cancele. Cameron e o ex-vice-presidente Al Gore participam em Manaus, dias 26 e 27, como palestrantes, do Fórum Internacional de Sustentabilidade. ‘Avatar’, entre outras coisas, transformou Cameron em guru da ecologia e o Vaticano até reclamou da nova religião que ele cria na exuberante floresta de Pandora. Tem gente que acha o filme infantil, eu levo a sério. ‘James’ é um visionário. ‘Avatar’ na veia. E, quanto aos brucutus australianos, pro inferno!