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Cultura » Calçada da Fama. Você disse – da Fama?

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Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2007 | 17h33

Voltei ao Hollywood Boulevard, um pouco porque estava com o Daniel Augusto, do GNT, pela primeira vez em Los Angeles, mas também porque há uma loja de livros de cinema que me encanta e que eu queria revisitar. Sei como chegar, mas nunca me lembro o nome. Peguei o cartão e, como ela tem um site na internet, amanhã posto o endereço, para o caso de alguém querer pesquisar. Comprei uma coleção muito interessante, Cinema Retro, de revistas especializadas sobre o cinema dos anos 60 e 70. Prometo voltar ao assunto porque me parece legal, justamente depois da repercussão que teve, para muitos de vocês, o post sobre ‘Hablemos de Cine’. Entraram na internet? Um amigo que quis saber mais sobre ‘Hablemos de Cine’ já me informou que se podem comprar, pela rede, números raros da revista – vejam. Mas, enfim, lá estava eu no Hollywood Boulevard e é uma coisa que me impressiona muito. Acho que David Lynch tem a mesma impressão que eu e, por isso, ele colocou a Laura Dern sem-teto e drogada jogada na rua, como lixo, naquele endereço mítico do cinema. De um lado da calçada você tem o Kodak Theatre e o Chinese Theatre. De outro, o El Capitán, o mais tradicional cinema da Disney. E, ao longo de toda a rua, aquelas estrelas incrustadas que constituem a Calçada da Fama. É comum encontrar por ali clones de Marilyn Monroe, de Elvis Presley, do Homem-Aranha, da Mulher-Maravilha. O que me impressionou foi a quantidade de clones de Johnny Depp em Piratas do Caribe. A gente tromba com dois, três, a cada metro quadrado. É gente que fica ali e cobra para posar para fotos com turistas, como aqueles gladiadores que a gente encontra no Coliseu, em Roma. Hollywood, talvez por celebrar a magia, é terrível como amostragem da derrota. A quantidade de gente atraída pelo sonho do sucesso e do dinheiro tem seu contraponto, que é justamente a legião daqueles que nada conseguiram. Pode-se encontrar, por ali, sem-teto meio dementes (e mais sujos) do que os que você encontra nas esquinas da miséria de qualquer grande cidade (capital) brasileira. Juro – tinha um cara, neste sábado, que caminhava a ermo e soltava um grunhidos que me lembraram o garoto selvagem no meu Truffaut preferido. Eu via aquele cara – um negro enorme, forte, que parecia endemoniado – e me vinha na cabeça a música de Antoine Duhamel que acompanha Victor (Jean-Pierre Cargol), o enfant sauvage de Truffaut. Os contrastes no Hollywood Boulevard, quando vistos no cinema – num filme de Lynch, ‘Inland Empire’, por exemplo –, viram uma representação metafórica do mundo. Não há glamour nenhum, só miséria humana, quando você vê aquilo ao vivo e a cores.

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