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Cala-se o polemista

Luiz Carlos Merten

18 Junho 2010 | 09h59

Morreu José Saramago, aos 87 anos, em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. É incrível como a morte nos deixa compungidos e solidários. Sempre tive a maior resistência ao escritor, que achava ilegível, como escrevi várias vezes aqui no blog. Comecei vários, quase todos os livros de Saramago, e parava, lá pelas tantas. Depois, retomava, muitas páginas adiante, para pelo menos concluir. P… cara chato, meu Deus. Medíocre? Por aí. Mas se não tinha muito respeito pelo artista que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura – outros, tão melhores que ele, nunca receberam o prêmio; penso em Borges, claro -, tinha, pelo contrário, uma admiração irrestrita pelo polemista que atacava a Igreja Católica, o Papa Bento XVI e o regime cubano, mas também adorava dar um pau em Israel e não poupava o sistema econômico dominante, o que, para mim, atualmente, determina o grau de decência de uma pessoa. Quem acha que essa ditadura de consumo é tudo o que devemos aspirar não me merece crédito. O curioso é que, até hoje, não consigo definir se gosto de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, adaptado por Fernando Meirelles. Era o filme que ele queria fazer antes de ‘Cidade de Deus’, mas o escritor não aceitou lhe vender os direitos. O projeto voltou a Meirelles muitos anos depois. Admiro a solidez do filme e o tour de force da visualização daquele mundo levado ao colapso pela cegueira de todos, menos a mulher (personagem interpretada por Julianne Moore). Mas a parábola nunca me convenceu plenamente e há um artificialismo de conceito que trava minha adesão entusiasmada. Estou tentando me lembrar de outras coisas de Saramago no cinema. Me vem só o teatro, que também não é muito bom. Vamos ver se ou o quê vocês têm para agregar a este post.