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Luiz Carlos Merten

15 Setembro 2008 | 12h23

Tivemos outro dia no almoço, aqui no Estado, uma discussão sobre tragédia grega que começou com observações ligeiras sobre o estilo de representação de nossas maiores atrizes, Fernanda Montenegro e Marília Pêra. Fernanda seria insuperável no drama, mas Marília iria mais longe no registro do trágico. Tenho minhas dúvidas, mas, enfim, já que se falava em tragédia o assunto caiu em Eurípedes, em Ésquilo e Sófocles. Medéia é sempre citada nesses casos, porque o assassinato dos filhos pela própria mãe parece o limite do horror e a prova definitiva de que, na tragédia grega, tudo ocorre em família, e no mesmo lugar. Não sei se vou formular direito o que gostaria de dizer. Nunca fui muito de gostar de Pier Paolo Pasolini, mas aí assisti a ‘Medéia’ e me encantou o começo do filme, o encontro do jovem Jasão com o centauro mítico que lhe faz aquele discurso sobre a sacralização do mundo – ‘Tutto è santo’ –, rompida pela barbárie do crime materno. Mais tarde, no mesmo filme, após matar os filhos, a Medéia de Maria Callas lança um grito de desespero que até hoje ecoa em meus ouvidos. É uma coisa animal, bárbara e Pasolini com certeza quis a grande soprano no papel por causa daquele momento único. Acho que ‘Gota d’Água’, de Chico Buarque e Paulo Pontes, é contemporâneo da ‘Medéia’ de Pasolini, não vou consultar para conferir. Veio depois, bem depois, a versão do mexicano Arturo Ripstein e todos, no teatro e no cinema, viram sempre na tragédia uma forma de escrita (e representação) que utiliza o derramamento de sangue e termina em sofrimento e dor, para inspirar terror e piedade. Esse ponto de não retorno pelo qual os autores sempre procuraram incitar à compaixão pela fragilidade humana não sei se foi banalizado, mas depois do caso Isabella, que já era o horror – o pai e a madrasta acusados de lançar uma garota pela janela do edifício –, temos agora esse outro pai e essa madrasta que asfixiaram, queimaram e esquartejaram dois meninos em Ribeirão Preto. As madrastas voltaram, e mais sinistras do que em qualquer conto de fadas. Só hoje me inteirei dos detalhes do caso de Ribeirão, ao ler o relato sobre o crime na edição de sábado do ‘Jornal da Tarde’, que estava com outros jornais no balcão ao lado da minha mesa. Via as chamadas de TV, durante nossos cafés pela manhã, mas depois da Isabela eu não estava mais afim de entrar em outra overdose daquela. Chamou-me a atenção o título da capa do JT – há um ano o Ministério Público já sabia que os irmãos eram torturados. Foi um crime anunciado e nada foi feito para impedí-lo e, enquanto isso, durante um ano inteiro essas crianças sofreram todo tipo de abuso e violência. Gente, não sei o que me horroriza mais, se a tragédia em si, o horror do crime, ou essa omissão dos que sabiam e não puderam ou não quiseram interferir. Não existe crime mais terrível do que a omissão, e no entanto o praticamos – todos – no dia a dia. As coisas vão ocorrendo, a injustiça, formas variadas de violência, a gente vai aceitando, tornando-se conivente e muitas vezes só depois tomamos consciência de que algumas coisas – muitas coisas? – poderiam ter sido evitadas. Tudo isso está-se misturando na minha cabeça com ‘Última Parada 174’, a que assisti ontem à noite e que ficcionaliza o episódio que a gente já conhecia como documentário do Padilha, ‘Ônibus 174’. Saí da minha festa de aniversário em choque para o chamado mundo ‘real’. E até entendo melhor o fracasso de público do José Mojica Marins. Pra que ver ‘A Reencarnação do Demônio’, se o capeta já está solto por aqui…