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Luiz Carlos Merten

06 Outubro 2007 | 19h26

Enquanto estava no Festival do Rio, meu amigo e editor no Caderno 2, Dib Carneiro Neto, Foi à Europa, passando por Paris, de onde me trouxe as revistas de cinema do mês. Cahiers, Première, Studio. Este mês, saíram duas edições de Cahiers. A normal e outra hors série, fora de série, dedicada a Bergman e Antonioni. Além de textos escritos especialmente para assinalar a morte (no mesmo dia!) dos dois grandes diretores, Cahiers foi ao seus arquivos e resgatou críticas de André Labarthe, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Jean-Luc Godard e Jean Douchet sobre os dois. Não li nada, mas só de folhear fiquei com água na boca. E as fotos? Deslumbrantes – uma da Mônica Vitti em O Deserto Vermelho (e o vermelho do título dá a textura à imagem) que é um arraso. Fiquei curioso especialmente para ler um velho texto que não conhecia – um diálogo entre Godard e Antonioni. Você pode até não gostar de um nem de outro, mas as grandes transformações do cinema nos anos 60 passam pela obra desses dois, aliás, três. Bergman e Antonioni eram tão grandes que não se pode dizer que a morte de um tenha ofuscado a morte de outro. Essa singularidade, duas mortes de diretores importantes no mesmo dia, me lembra que, em 1984, François Truffaut e Pierre Kast também morreram no mesmo dia. A morte de Truffaut provocou uma espécie de luto nacional na França e a comoção atingiu seus tietes em todo o mundo. Truffaut ganhou capas e capas. Pierre Kast mereceu uma linha ou duas. Engraçado – ou mesmo, curioso -, mas assistindo a Accross the Universe eu podia me ver quando jovem, nos anos 60. Girl, I Wanna Hold Your Hand, Jude, All We Need Is Love, Let It Be – havia um momento da minha vida para cada uma daquelas músicas. Curti aquelas madeleines musicais e viajei nas lembranças. Pierre Kast também faz parte das minhas memórias da época. Via os filmes dele no antigo Cine Ópera, em Porto Alegre, na Rua da Praia. Kast foi um grande realizador de curtas – tinha um sobre Le Corbusier, a que assisti quando cursava a Faculdade de Arquitetura, em Porto, que era maravilhoso, e outro, melhor ainda, inspirado na obra de Goya e que se chamava, se não me engano, Os Desastres da Guerra. Kast, num certo sentido, encarnava a vertente mais literária (e pedante) da nouvelle vague, mas eu gostava do insólito nos filmes dele. E o cara era apaixonado pela América do Sul – filmou OS Mil Sóis da Ilha de Páscoa na ilha do título e A Nudez de Alexandra no Brasil, contando, no segundo, duas histórias, uma desenrolada no Brasil colonial e a outra encravada na modernidade dos anos 60 (Juscelino, bossa nova). Quando falo em insólito, penso naquelas grandes estátuas da Ilha de Páscoa ou na influência de Moebius em Alexandra. Não creio que Kast fosse um grande diretor, mas ele me intrigava (e sua parceria com outro esquecido da nouvelle vague, Jacques Doniol Valcroze, que Daniel Filho cita em Primo Basílio, produziu filmes que tinham a cara daquela época). Lembrei-me imediatamente dele ao ver a capa de Cahiers dedicada a Antonioni e Bergman. Mesmo reconhecendo que Truffaut era mais importante, sempre achei injusto o eclipse que sua sombra produziu sobre a morte de Pierre Kast. Para encerrar este post – uma coisa sempre leva a outra -, Leon Cakoff anunciou que a Mostra de 2007 vai homenagear Serge Daney, crítico importante de Cahiers du Cinéma, incluindo uma brincadeira – alguns títulos da seleção deste ano foram garimpados por Jean-Michel Frodon, atual redator-chefe de Cahiers, que vai fazer uma projeção, imaginando como Daney os avaliaria, se fosse vivo. E não é que voltamos ao Vidente, de novo?