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Cahiers!

Luiz Carlos Merten

10 Fevereiro 2018 | 19h05

Há meses que as revistas francesas de cinema não chegavam à banca do Conjunto Nacional. Apesar da dor, passei por lá ontem para comprar alguns livros de Agatha Christie para me acompanharem neste carnaval. Haviam chegado as edições de novembro e dezembro de Cahiers du Cinéma. Jordan Peele, na capa de novembro – a revista encantou-se com Corra! e o definiu como revelação do ano (não, nenhuma referência a Esposas em Conflito, de Bryan Forbes, que, pelo visto, ninguém conhece) – e David Lynch na de dezembro. Bilan 2017. Os top ten da redação. Twin Peaks na cabeça, seguido de Jeanette, Certaines Femmes, Corra!, O Dia Depois, O Amante de Cinco Dias, Good Time, Fragmentado, Jackie, Um Dia na Vida de Billy Lynn. Não rezo muito na cartilha de Lynch e até acho suas transgressões comportadas (previsíveis?), de quem opera dentro do sistema, e não à margem. Fico pasmo quando coleguinhas que não gostam de nada babam pelo Lynch. Em que mundo vivem? Na esquina da Ipiranga com a São João tem mais bizarrice que no cinema dele, e é tudo gente como a gente. Corra? Estou passando, mas gostei de uma linha de tempo que Cahiers fez em novembro, uma história dos cineastas negros americanos. Oscar Micheaux, claro. E Gordon Parks. The Learning Tree, 1969. Como fotógrafo, Parks havia documentado a miséria nas favelas do Rio. A crítica brasileira caiu matando em seu longa, e continuou batendo em Shaft, que ele fez em plena era dos blaxploitation movies. Nada como o tempo para recolocar as coisas em perspectiva e valorizar o outrora desprezado. Mesmo não sendo doutrinado por Cahiers, em nenhuma de suas fases, sempre gostei como a revista banca suas preferências, e elas, sim, muitas vezes surpreendem. Com tantos Hong Sangsoos em 2017, Cahiers preferiu O Dia Depois, e não Na Praia à Noite Sozinha. Good Time! Os Safdie Brothers. M. Night Shyamalan, Fragmentado. E o Ang Lee, Billy Lynn, que vi em Paris e gosto mais que de As Aventuras de Pi, coroado com todos aqueles Oscars. Na Mostra, entrevistei Paul Vecchiali e falamos bastante sobre a centenária Danielle Darrieux. Havia visto, depois de Cannes, alguns de seus antigos filmes, anos 1930 e 40 – numa retrospectiva na Filmoteca do Quartier Latin. Na edição de dezembro, há um texto de Vecchiali sobre a disparue Danielle, Adieu, Chérie. E assim como só em Tiradentes, na Aurora, se veem certos filmes, onde mais, senão em Cahiers, é possível encontrar um extenso estudo sobre os filmes de Terence Fisher na Hammer?