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Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2006 | 13h05

É impressionante quando se assiste hoje a um filme como Os Cafajestes, de Ruy Guerra, com que a Globo homenageou Jece Valadão, na madrugada de segunda para terça. Cecília Thompson me mandou um e-mail comentando a exibição. Tenho o maior respeito pelo Ruy, que venceu o Prêmio Multicultural Estadão Cultura, embora não goste do seu trabalho mais recente, Veneno na Madrugada, que me parece o legítimo (vou pegar o título emprestado) ‘mamute siberiano’. Diferenças à parte, em relação a um ou outro título de uma filmografia tão coerente quanto exigente, gosto muito de Os Cafajestes, Os Fuzis, Os Deuses e os Mortos, A Queda e Estorvo. Há, no cinema de Ruy, um racionalismo da mise-en-scène que acho que tem o pé na cultura européia, onde ele se formou, por mais que tenha se tornado (brasileiro e latino-americano) por sua vida e obra. Fantasio achando que Glauber era vulcânico e Ruy sempre foi racional. A forte impressão que Os Cafajestes me causa é dupla. Revi o filme em janeiro, no Festival de Tiradentes, e achei muito duro, além de premonitório, o enfoque da cafajestice daquela juventude encarnada por Jece Valadão e Daniel Filho. É impressionante como grandes artistas vivem à frente do seu tempo. Como, em 1962, Ruy pôde intuir o que ia se passar em 2006? Ou como o mundo piorou tanto que a cafajestice de 40 anos atrás foi aprimorada e hoje temos PhDs na matéria? Talvez, na verdade, não seja uma coisa nem outra e ser cafajeste sempre fez parte da natureza humana (de certos humanos, pelo menos, vamos nos incluir fora dessa). Mas confesso que o que mais impressiona, além da beleza e coragem da Norma Bengell, com seu nu frontal que causou celeuma na época, nem é tanto a política, mas a estética. Os planos-seqüências do Ruy são maravilhosos e ele nunca deixou de exercitá-los, construindo seu estilo sobre eles. Me lembro que, quando estreou Estorvo, houve um auê por conta da fotografia espetacular do Marcelo Durst e o Ruy, sem desmerecer a contribuição do cara, deixou claro que a concepção era rigorosamente autoral, coisa dele. Este controle da imagem já é evidente desde Os Cafajestes, com a fotografia em preto-e-branco do Tony Rabatoni, que tinha vindo da publicidade e havia fotografado A Morte Comanda o Cangaço, do Carlos Coimbra, construindo aquelas imagens coloridas do sertão. Tenho cá a minha tese de que Coimbra inventou a cosmética da fome e digo isso sem também desmerecê-lo, de maneira alguma. Escrevi o livro do Coimbra na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, porque quis, porque queria conhecê-lo e até valorizá-lo. Afinal, Coimbra emplacou um número muito grande de filmes de ação entre as maiores bilheterias do cinema brasileiro. Sim, eu sei, sucesso de público não é garantia estética, mas faz parte da história, também, e eu acho que os artesãos do cinema brasileiro não podem nem devem ser ignorados. Coimbra me contou como chegou àquela fotografia ao ver, avançando para ele, uma mancha vermelha no sertão do Ceará, quando buscava locações. Queria até chamar o livro de Carlos Coimbra, o Colorista do Sertão, mas acho que o título foi considerado muito cifrado (ou então simplesmente não agradou). Pois bem – a fotografia do Tony para Os Cafajestes é genial e, na minha cabeça, aquelas dunas, filmadas em preto-e-branco, são um contraponto ao esplendor visual do deserto colorido de David Lean em Lawrence da Arábia, que é do mesmo ano. Foi uma homenagem e tanto da Globo para o Jece Valadão.