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Luiz Carlos Merten

10 Fevereiro 2011 | 21h28

BERLIM – Comecou! Leiam como se esse c tivesse cedilha. A Berlinale de 2011 se iniciou sob o signo dos irmaos Coen, True Grit, Bravura Indomita. Prefiro a versao de Henry Hathaway, muito melhor diretor do que Ethan e Joel jamais serao, mas, fazer o que?, o mundo estah mesmo formatado para celebrar a mediocridade. Exagero – nao diria que eles sao mediocres, mas o filme eh estranhissimo. Puro cinema dialogado. Os personagens falam, Joel filma em campo e contracampo, movimenta um pouco o relato e volta ao dialogo, ao campo-contracampo. Vai nesse tranco ateh o fim. Me senti no tunel do tempo, de volta para o passado. Na Mostra Aurora, em Tiradentes, havia mais ousadia. Eu assumo que vivo na contramao da Academia de Hollywood, e assim espero continuar. Colin Firth vai ganhar o Oscar deste ano e eh provavel que O Discurso do Rei emplaque tambem os premios de filme e direcao. Academico na forma e classico no conteudo, o filme eh uma merda, mas uma cagada com classe, pelo menos para os academicos, me perdoem. Vejam como sao as coisas – Colin Firth leva este ano, mas eu acho que ele merecia muito mais por seu papel em O Direito de Amar, de Tom Ford, no ano passado. A ignorantada que se instalou na critica e pensa em bloco, para se legitimar, disse que o filme era fashion. Ai, meu Deus! Nao entenderam nada daquela cena do miche que se oferece para Colin Firth e ele paga o cara, mas dispensa. A coisa eh tao injusta que Jeff Bridges, que venceu no ano passado, merecia mais este ano pelo seu papel nos Coens. Ouso dizer que, sem ele, o filme seria insuportavel – teria sido, para mim. Mas deixem-me fazer a concessao aos fas dos irmaos. Ethan e Joel estao cada vez melhores para se conversar. Entrevistei-os hoje no comeco da tarde. Ethan eh o boa praca (o c como 2s), Joel faz o modelo autor, mais irascivel. Nao creio que estivessem fazendo genero, mas dizem que estao tentando entender ateh agora o sucesso de Bravura Indomita nos EUA. Eh, simplesmente, o maior sucesso da carreira deles. O filme rendeu mais do que Fargo e Onde os Fracos nao Tem Vez juntos. Mentira, rendeu mais do que TODOS os filmes dos irmaos. Serah o fascinio do western? Na entrevista, Ethan observou que o genero eh considerado morto, mas continua assombrando o publico e os criticos. Comentei com Jose Carlos Avellar e ele levantou a hipotese mais sensata, de que pode ser o estudio, a Paramount. Fica no ar a indagacao. Nestes anos todos de Berlim, tenho de fazer uma confissao. Nunca havia ido aa (crase) cerimonia de abertura. Durou uma hora e voces devem encontrar imagens no You Tube. Mesmo sendo a lingua de Goethe, o alemao nao tem a universalidade do ingles nem, em menor escala, do frances. A cerimonia eh quase toda em alemao. Eles riam, faziam piada, Ethan Coen olhava para Jeff Bridges e ele fazia cara de quem estava boiando, mas serissimo. Jeff Bridges merecia um Oscar soh por fazer o panaca da cerimonia de abertura da Berlinale. Durante todo o tempo, a cadeira vazia – a de Jafar Panahi, nao de Lupicinio Rodrigues – ficou ali, como um chamado aa (crase, de novo) consciencia. Panahi mandou uma carta que a presidente do juri, Isabella Rossellini, leu. Ela leu em ingles, o texto original deve ser em farsi, mas sobre a sua voz foi superposta a da tradutora para o alemäao. Nao entendi nada, mas Isabella foi tao emocionante que aplaudi, como todo mundo. Aplauso de peh, mas duvido que Mahmoud Ahmadinejad se deixe influenciar. O texto da carta, em tres idiomas, farsi, alemao e ingles, estah no site do festival, www.berlinale.de. Panahi fala da sua condenacao, do que vai perder nos proximos 20 anos e formula votos sobre o mundo que espera encontrar neste futuro que, agora, lhe parece distante demais. Em homenagem a Panahi – os filmes dele descrevem estruturas circulares, nao apenas em O Circulo -, volto ao inicio. Comecou! Como sempre, espero estar aberto para o que vou ver, aa altura do que vao me mostrar os autores selecionados.  Com excecao de Bela Tarr, Miranda July e o cara do Procurando Ely, Fahri Azgadi, eh isso, näo?, a maioria dos nomes eh de diretores pouco conhecidos, ou mesmo desconhecidos. Um festival de descobertas? Tomara.