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Luiz Carlos Merten

15 Janeiro 2007 | 16h07

Estava postando o texto sobre King Vidor quando me dei conta do esquecimento – não havia colocado Duelo ao Sol, o mais impuro dos westerns (com Johnny Guitar, de Nicholas Ray), na minha lista de bangue-bangue preferidos. Pior – logo em seguida, me deu a sensação de que havia esquecido outro western ainda mais importante para mim, Shane, aqui chamado Os Brutos também Amam, de George Stevens. Voltei à lista e dito e feito. Cadê o Shane? Imagino que alguns dos 14 comentários ali listados, e que ainda não li, sejam para lamentar a ilustre ausência. Colocado, ou recolocado, Shane no panteão que merece, fica o problema – qual filme tirar para manter a lista nos dez? Temos dois Ford, mas Rastros de Ódio e O Homem Que Matou o Facínora permanecem, até porque o primeiro está acima do bem e do mal e o segundo talvez seja o filme que melhor expressa o tema fordiano da grandeza dos derrotados (além de trazer um John Wayne em estado de graça, como Tom Doniphom). Temos também dois Gordon Douglas, o que pode parecer exagero, considerando-se que ele raramente é considerado genial, exceto por mim. Mas se eu tirar um GD, será o de Rio Conchos, por mais que idolatre aquele filme e seu atormentado personagem – o anti-herói interpretado por Richard Boone. Gosto demais do remake que GD fez, em 1965 ou 66, de Stagecoach, No Tempo das Diligências. O filme se chamou, no Brasil, A Última Diligência e eu acho coisa de louco a maneira como o diretor reinventa John Ford, transformando a horizontalidade do cenário do mestre (Monument Valley, um solo sagrado do western) em outra coisa. Ambientes rugosos, montes, rochas, barro. E, no centro de tudo isso, Alex Cord e Ann-Margret. Como imaginar que ambos pudessem superar, ou pelo menos se igualar, a John Wayne e Claire Trevor, como Ringo the Kid e Dallas? Só GD. Ambos são tão breguinhas que se tornam comoventes. Alex Cord fez poucos filmes e sumiu. Pouca gente deve se lembrar dele. Eu me lembro. Sua cena de refeição com Ann, os dois isolados do resto do pessoal da diligência, a conversa triste de dois outsiders, aquilo é maravilhoso. GD cria diferentes planos para sugerir o isolamento (e a superioridade moral) da sua dupla. A Última Diligência superior a No Tempo das Diligências? Não estou dizendo isso e sim, que a versão de GD para Stagecoach me toca mais.