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Luiz Carlos Merten

21 Julho 2009 | 17h31

Meu mestre josé Onofre escreveu, em julho de 1991 – há 18 anos –, um texto antológico no ‘Caderno 2’ sobre ‘Caçada Humana’, que havia sido lançado em vídeo. Gostaria de transcrever esse texto que é muito melhor do que poderia escrever, e seria uma homenagem ao Zé (e a um de seus filmes preferidos). Infelizmente, este texto não está digitalizado nem disponível no arquivo do jornal. José Onofre começa seu texto dizendo que o mundo terminava, em 1966, com fogo, explosões e execuções sumárias num velho cemitério de automóveis de uma cidadezinha perdida no interior do Texas, em meio a adultério, espancamentos, racismo e traições. Mas o mundo que acabava, numa repetição brutal do assassinato de John Kennedy, era só apenas aquele contido num sonho de quase 200 anos – o dos EUA ingênuo e vital, a América dos fundadfores, em que capitalistas, comerciantes e pequenos fazendeiros, viveriam em harmonia dentro da Constituição, isto é, da lei e da ordem. O apocalipser ocorria no cinema, por meio de um filme e era ‘The Chase’, Caçada Humana.
O xerife Calder, Brando, vê o mundo desabar ao seu redor num único fim de semana. Um homem fugiu da cadeia e agora o dono da cidade quer que ele o localize (e prenda). Esse homem é mais do que uma ameaça à ordem – é o marido da amante do filho do capitalista, e ele só pensa em proteger sua cria. Robert Redford é o intérprete do papel de Bubby (ou Buddy?) Reeves, elegante até num traje de presidiário. Lembro-me que Onofre o definiu como o odiado sem culpa. Reeves era o inocente como Kennedy, abatido no Texas por motivos mais ligados ao inconsciente da ‘América’ do que à realidade de seu governo. Engraçado, estou escrevendo e dou-me conta de que ‘Caçada Humana’ é um dos filmes mais ‘físicos’ já feitos. O filme tem esta cena em que Martha Hyer, bêbada, puxa seu colar de pérolas que rebenta e elas se espalham pelo chão. Parece que vou estender a mão e pegar uma dessas pérolas que rodopiam na tela (ou no meu imaginário). Brando rejeita indignado a oferta da mãe de Reeves, que pressente o pior para o filho e, convencida de que o xerife é homem de confiança do poderoso, lhe oferece dinheiro. Em seguida, Brando toma aquela surra homérica, uma das mais violentas do cinema, mesmo para um ator que já apanhara, masoquistamente, em ‘Sindicato de Ladrões’ e ‘A Face Oculta’ (que ele próprio dirigiu). Arthur Penn olhou o Sul com o distanciamento crítico de um intelectual de Nova York. Seu filme dá razão a Freud, que dizia que a América era um gigantesco erro de Colombo. Não apenas Penn, mas o teatrólogo Horton Foote, autor do texto original, a roteirista Lilian Hellman e a estrela Jane Fonda, que viraria a seguir um símbolo de protesto, fizeram deste filme raro a antecipação do lodaçal do Vietnã e dos mitos alternativos criados pelo flowerpower e pelo blackpower, todosd buscando uma saída para o horror em que os EUA se haviam convertido. Tudo isso está em ‘Caçada Humana’. A irracionalidade explode e a tudo traga – o próprio chefão perde o controle da situação, de si, do mundo. Volto a José Onofre. Ele dizia que a fuga de Robert Redford tem o desespero de um adeus – a algo que a ‘América’ já perdera, mas só então começava a perceber. Leonard Maltin, em seu guia de filmes, diz que ‘The Chase’ misses the mark. Em geral é o que a crítica norte-americana diz do filme. Arthur Penn se perdeu em meio a crise que teve de administrar, quando perdeu a montagem final. Robin Wood está certo. Penn devia ter um ‘Caçada Humana’ ideal na cabeça. Nós não temos, eu não tenho. Só essa emoção funda, essa indignação que o filme causa. Vou transcrever um trecho do texto de José Onofre – o maior personagem da mitologia norte-americana, no cinema, é o xerife. Penn e Brando constroem sua autoridade com um vigor e uma decência raros. E, depois, a desmontam, sem tirar-lhe a honra, com uma violência rara. Cássio, espero que ‘Caçada Humana’ tenha te causado a mesma emoção visceral que sempre me provoca. P… filme!