Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Cacá, de novo

Cultura

Luiz Carlos Merten

14 Setembro 2010 | 10h55

Gostei de participar do ‘Roda Viva’ com Cacá Diegues, mas confesso que não gostei muito do novo formato do programa. A apresentadora, Marília Gabriela, e dois debatedores fixos, Augusto Nunes e Paulo Moreira Leite, mais os dois convidados. O trio está bem afinado – e Marília, que estava preocupada com o decote da blusa, que escorregava, é ótima -, mas acho que, de alguma forma, cria-se uma inibição sobre os convidados. Em dois ou três momentos, me arrependi depois de não ter polemizado, com a própria bancada fixa, mas o entrevistado, enfim, era o Cacá. De qualquer maneira, o que quero dizer é o seguinte. Mesmo quando discordo de Cacá, tenho grande respeito e admiração por ele. Pelos filmes – de alguns, gosto muito – e pelo polemista que o diretor sempre foi. Era estudante, na faculdade de arquitetura, e lia o que ele escrevia na revista do IAB, e que me parecia bem instigante, embora muita coisa fosse contra o que meus colegas de geração defendiam – defendíamos – em Porto. Gosto quando ele diz, o que repetiu mais uma vez, que pertence a uma geração – basicamente, a do Cinema Novo, Glauber, Leon, Nelson etc -, que sempre se interessou muito pelo Brasil. É verdade. Influenciada por pensadores, a geração cine-novista quis colocar a cara do Brasil na tela. Muito já se falou que houve um tempo em que o povo estava na tela, nos clássicos do Cinema Novo, mas desertava da plateia. Era o medo do novo, talvez, de se reconhecer. Era a audácia da linguagem. Era, finalmente, o tipo de linguagem – a alegoria, o simbolismo etc – que os autores usavam para driblar a censura do regime militar. O próprio Cacá começou com sucessos de público (‘A Grande Cidade’), teve a sua fase hermética (‘Os Herdeiros’, ‘Quando o Carnaval Chegar’, que tem uma das trilhas mais belas do cinema brasileiro, mas isso ‘A Grande Cidade’ também tinha), explodiu de novo de público com ‘Xica da Silva’ e ‘Bye, Bye Brasil’. Hoje em dia, Cacá continua preocupado com o povo brasileiro. Impulsiona novos talentos (‘5 Vezes Favela’), defende novas iniciativas para incrementar o público e formar plateias. É muito diferente de um certo tipo de intelectual, ou de polemista fajuto, que caga para o País e quer ser globalizado a qualquer preço. Vou misturar as coisas, mas outro dia recebi o telefonema de uma leitora do ‘Estado’, a quem ouvi respeitosamente, embora a vontade fosse outra. Ela esculhambou com Luis Fernando Verissimo, por um texto que nem li, em que ele criticava a atuação dos EUA no Iraque. Ela caiu matando no esquerdismo da mídia brasileira, disse que Verissimo era um m… (ou quase isso). Queria enquadrar o Verissimo, aí não deu e eu tive de pedir para ela segurar. Que enviasse sua reclamação, mas o cara tinha de ser soberano no seu espaço, claro que não sem impunidade. A ideia é que a invasão de Bush Jr. foi necessária, sim, Saddam tinha armas químicas – tinha mesmo, na época em que era aliado dos EUA e as usou contra os curdos, coisa que o cinema denunciou mas que Washington consentia, porque, afinal, naquele tempo o cara era dos ‘nossos’, quero dizer, dos ‘deles’. É impressionante como as pessoas se deixam manipular, como acham que sabem e como aceitam meias verdades como verdades inteiras. Tenho sempre no bolso um pocket para ler no carro do jornal, a caminho das minhas pautas. Agatha Christie e Georges Simenon são preferências antigas. O da vez é ‘Um Gato entre os Pombos’. A velhinha era foda. Logo no começo, falando sobre o comportamento da juventude, diz que a solução é a disciplina sem imposição. A disciplina tranquiliza os jovens, dá-lhes segurança, mas a imposição gera irritação. Ela diz isso en passant – uma sábia. Mais adiante, falando de democracia, acrescenta que ela nunca tem o sentido que lhe atribuíam os gregos. Cada um tem, hoje em dia, a sua (e a dos outros não vale). Sensacional. O ‘Roda Viva’ com Cacá Diegues deve ir ao ar na segunda que vem. Vai valer a pena. Ele diz coisas bem interessantes. Gostei.