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Luiz Carlos Merten

16 Dezembro 2009 | 09h41

Talvez, ao invés de ‘Cabrera Infante (2)’, este post se devesse chamar ‘Gullermo Caín’, como o pseudônimo adotado pelo futuro escritor, na sua fase de crítico de cinema. Descobri Cabrera Infante nos anos 1970, percorrendo a América Latina. Foi em Buenos Aires, deve ter sido por volta de 1975, o ano da publicação de ‘Un Oficio del Siglo XX’. O livro reúne as críticas que Cabrera Infante escreveu sob pseudônimo. É um dos meus livros preferidos de críticas. Acredito que tenha sido decisivo em minha formação. Que André Bazin, que nada. Minha primeira teoria de cinema acho que veio por meio de Enéas de Souza (‘Trajetórias do Cinema Moderno’) e depois Jean Douchet fez minha cabeça, através de Jefferson Barros, muito antes que eu descobrisse Bazin e o seu ‘Qu’est-ce le cinéma?’ Guillermo Cain me apaixonou porque era o tipo de crítica ‘literária’ que eu percebi, desde cedo, que queria fazer (se conseguisse…) Foi ali, em Buenos Aires, que descobri que Caín e Cabrera Infante eram a mesma pessoa, e foi quando li ‘Tres Tristes Tigres’, em espanhol (mas confesso que, na época, por mais que tenha gostado do livro, me encantaram mais as ‘Conversaciones en la Catedral’, de Mario Vargas Llosa, e outro livro hoje ligado à tradição, mas que havia sido de vanguarda anos antes, o ‘Don Segundo Sombra’ de Ricardo Güiraldes). Cabrera Infante (re)edita as críticas de Guillermo Caín e ele próprio ironiza. Ao dizer que trocou o sexo de Suso Cecchi D’Amico, achando que a colaboradora de Visconti era homem, admite que não foi seu único equívoco na avaliação do grande artista. Na sua crítica – belíssima – de ‘Bom-Dia, Tristeza’, ele gasta parágrafos descrevendo os créditos de Saul Bass porque descobre neles a própria essência do grande filme que Otto Preminger adaptou de Françoise Sagan. Guillermo Caín escreveu para Joseph Losey o roteiro nunca filmado de ‘A Sombra do Vulcão’, de Malcolm Lowry. O roteiro foi considerado infilmável por John Huston, quando assumiu o projeto, e ele terminou fazendo seu filme, que agradaria ao próprio escritor – Albert Finney é genial como o cônsul Firmin -, com roteiro de Guy Gallo. Mas é com Richard C. Sarafian, que Antônio Gonçalves Filho implica. Diz que teria sido melhor se ele tivesse transformado o roteiro de Caín para ‘Vanishing Point’ – ‘Corrida Contra o Destino’ no Brasil – num filme culto, e não apenas cultuado. Quero dizer que discordo. Não creio que Sarafian tenha transformado a história trágica de um motorista numa tragédia de automóvel. No meu imaginário, ‘Corrida Contra o Destino’ e seu personagem mítico, Kowalski, interpretado por Barry Newman, é a obra definitiva daquela vertente que fora aberta por ‘Sem Destino’, de Dennis Hopper, pouco antes. Até hoje, o enigma me perturba. Só muito mais tarde descobri que a revista francesa ‘Positif’ também considerava – era o que eu pensava – Sarafian o maior diretor de Hollywood por volta de 1970. Os pioneiros estavam morrendo ou inativos (John Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh), a geração de 1950 começava a perder espaço e os ‘easy riders’ que iriam tomar a dianteira em Hollywood ainda engatinhavam e não haviam dito a que vinham. Talvez Coppola, sim, com ‘Agora Você É Um Homem’ e ‘Caminhos Mal Traçados’ (The Rain People), mas o primeiro ‘Chefão’ ainda estava sendo gestado. Naquele quadro, e num biênio mítico, 1970/71, Richard C. Sarafian fez três filmes, ‘Tortura de Um Pesadelo’, ‘Corrida Contra o Destino’ e ‘Fúria Selvagem’ (Man in the Wilderness). Os dois últimos não poderiam ser mais diferentes, sem deixar de ser tão parecidos (e Guillermo Caín escreveu só ‘Vanishing Point’). Duas tragédias de solitários – um ex-fuzileiro que cai na estrada guiado por DJ negro e cego que o transforma em arauto contra o ‘sistema’, e um western, ou pré-western, sobre caçador que persegue os homens que o deixaram para morrer – e são liderados por John Huston, como um capitão que carrega seu navio pelo seco, antecipando o Fitzcarraldo de Werner Herzog. Richard Harris é sublime em ‘Fúria Selvagem’ e eu gostaria de acreditar no que diz Rubens Ewald Filho no seu verbete sobre o diretor, no ‘Dicionário de Cineastas’. Segundo ele, a mudança de poder na Metro, por volta de 1970, se refletiu na carreira de Sarafian, cujos filmes passaram a ser remontados (ou desmontados). E ainda houve ‘aquele’ incidente – uma morte misteriosa, talvez assassinato, no set de ‘The Man Who Loved Cat Dancing’, que no Brasil se chamou ‘Amor Feito de Ódio’, western onírico envolvendo Burt Reynolds e Sarah Miles, cuja estrela também eclipsou. Por um breve período, três/quatro anos, Sarafian foi grande, o maior. Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, diz que um dia será preciso lhe fazer justiça. De minha parte, já é o que venho fazendo, há anos.