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Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2008 | 11h50

Fui ver no sábado, com minha filha e genro, o horroroso ‘Trovão Musical’. Pode até ser que outros se divirtam com o filme dirigido e interpretado por Ben Stiler. Eu não consegui. Mas o que quero falar é do trailer de ‘Busca Implacável’, thriller com Liam Neeson no papel de um pai cuja filha é seqüestrada. O trailer, a que já venho assistindo há algum tempo – vocês também –, é muito eficaz. Eu, pelo menos, fico morrendo de vontade de ver, o que não me impede de pensar. Os caras seqüestram a filha do herói e ele diz, na maior calma, que possui um certo número de habilidades (quais?) que o transformam em pesadelo de criminosos como aquele com quem está falando ao telefone. O cara reage, diz que vai matar a garota e o pai retruca – solte-a e estamos quites, o caso acaba por aqui. Mas, se ocorrer alguma coisa, prepare-se porque irei até o fim. Acho que nem consegui me ligar no ‘Trovão Tropical’, indepentemente de o filme ser ruim, porque fiquei matutando. Lembro-me que, nos anos 70, ficamos horrorizados – 99% da crítica, incluindo eu – quando Charles Bronson pegou em armas e virou um vigilante obcecado por vingança contra os criminosos que chacinaram sua família, no primeiro ‘Desejo de Matar’, de Michael Winner. A vingança, até aquela época, era um tema recorrente no western, mas não havia virado o feijão com arroz do cinema de ação, como é hoje. O vigilante horrorizava, era mostrado criticamente, embora Bronson tenha ganhado uma certa parcela do público imediatamente, com aquele comportamento. Pergunto-me: em que momento, pais, maridos, irmãos, mulheres tomaram a si a tarefa de retaliar no cinema? Acho, estou chutando, mas talvez tenha sido conseqüência da descrença nas instituições que marcou os próprios anos 70 – o escândalo Watergate etc. Sem confiança nas instituições, com a presidência (de Nixon) sob suspeita, houve uma liberação geral para que todo mundo se sentisse mais ou menos liberado para agir por conta. O próprio sucesso, de público e crítica, de um grande filme como ‘O Poderoso Chefão’, de Coppola, mesmo anterior a Watergate, pode ter contribuído. O filme integra família e Máfia e, na cena-chave, a do batismo, Michael Corleone (Al Pacino) promove um banho de sangue para manter as duas famílias, a de sangue e a criminosa, unidas e consolidar seu poder. Sei que virou um fenômeno sociológico. Todo mundo pega hoje em armas no cinema. É a coisa mais legítima, mais natural. O cinema nos estimula a sermos vigilantes e, se isso ocorre com gente como a gente, por que não com países? Temos assistido, no opós-11 de Setembro, uma escalada da retaliação. Vi, en passant, que a capa de ‘Veja’ trata disso, mas como li a reportagem, não posso opinar e, de qualquer maneira, essa conversa comneçou para mim assistindo, de novo, ao trailer de um filme que promete. ‘O Procurado’ termina com aquele discurso infame do James McAvoy falando para o público. ‘Eu era um m… como vocês, agora minha vida mudou. E a de vocês?’ Só a violência nos absolve, é a mensagem. E o problema, que talvez nem seja para a maioria do público, é que quando o herói pega em armas o espectador o libera para cometer todo tipo de desatino até atingir sua vingança. O caminho é longo, em geral atingindo muita gente (e provocando muita morte e destruição), mas o quê fazer? Lembro-me que quando Don Siegel fez o primeiro ‘Dirty Harry’, Perseguidor Implacável, Clint Eastwood ia fundo na caçada ao Zodíaco, mas quando o filme terminava ele jogava sua Magnum 44 – e acho que o distintivo, não tenho tanta certeza – ao solo, consciente de que tinha ido longe demais, colocando-se acima (ou à margem) da lei. Nos filmes seguintes da série, Clint/Dirty Harry retomou as armas (a Magnum) e o distintivo para matar. E a gente vê e revê isso num misto de conivência e omissão. Já estava pensando nisso quando fui ver ontem, enfim, como tantos de vocês me pediam, ‘Um Crime Americano’. Caí do cavalo. Vamos ao post seguinte.

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