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Luiz Carlos Merten

07 Março 2012 | 12h11

Nove entre dez críticos vão dizer que Jack Clayton não cumpriu sua promessa inicial. Jack quem? Clayton morreu em 1995, há 17 anos, portanto. Ele é lembrado principalmente por ‘Os Inocentes’, terror gótico de 1961, que adaptou de ‘A Outra Volta do Parafuso’, de Henry James, com Deborah Kerr como governanta contratada para tomar conta de duas crianças numa mansão inglesa e que descobre que elas podem estar possuídas. Michael Winner fez uma pequel, com Marlon Brando, mostrando como tudo começou, com a influência maléfica do jardineiro, em ‘Os Que Chegam com a Noite’. Clayton havia sido produtor associado de ‘Moulin Rouge’, de John Huston, e provocara sensação com ‘Almas em Leilão’, de 1958, que deu o Oscar de atriz a Simone Signoret. O filme traçava o retrato de um arrivista, interpretado por Laurence Harvey e o curioso é que, se ‘Os Inocentes’ teve uma pequel, ‘Room at the Top’ teve uma sequel – ‘Leilão de Almas’, de Ted Kotcheff, com Jean Simmons (do qual gostava muito). Clayton decepcionou nos anos 1970, a partir de ‘O Grande Gatsby’, que não é completamente ruim, mas alguém devia ter dito a ele que, se Robert Redford tinha physique du rôle para o papel, Mia Farrow era no mínimo equivocada como Daisy e isso não tem nada a ver com a falta de talento da atriz. Antes do seu ‘Gatsby’, que Baz Luhrmann acaba de refilmar, com Leonardo DiCaprio, Clayton fez, ainda nos 60, ‘Crescei-vos e Multiplicai-vos’, The Pumpkin Eater, com Anne Bancroft e Peter Finch, com roteiro de Harold Pinter, e ‘Todas as Noites às 9’. Esse é um filme peculiar, sobre crianças cuja mãe morre e elas mantêm a aparência de que a vida segue normalmente, até que o pai (Dirk Bogarde) volta para casa. Nunca mais revi nenhum dos dois, mas guardo a lembrança do segundo como um filme perturbador e o primeiro tem cenas que me marcaram, incluindo a câmera que adota o ponto de vista de Anne quando ela caminha na praia. Vemos seus pés marcando a areia (era ela ou Peter Finch?) e a cena, obviamente, remete a ‘Limite’. Será que Clayton havia visto o filme famoso de Mário Peixoto? Vocês devem estar se perguntando – mas por que esse cara resolveu exumar um diretor do qual ninguém mais fala? Entrevistei ontem Alek Keshishian, diretor de ‘Na Cama com Madonna’ e roteirista de ‘W/E’, que estreia na sexta. Ele me contou que começou a escrever o novo filme de David Fincher, mas esse não é o assunto do post. Vocês sabem que gostei de ‘W/E’ – só para constar, na reunião de pauta de segunda-feira, Luiz Zanin fez cara de nojo e disse que detestou; nisso ficamos quites, pois ele amou o ‘Habemus Papam’, que achei uma m… – e o Keshishian me disse coisas muito interessantes. Madonna estava obcecada pelo cinema francês dos anos 1950 e 60, pela pré-nouvelle vague e por Jean-Luc Godard, cuja obra, como cinéfila de carteirinha, ela conhece de cor. Keshishian disse que nunca esteve muito seguro de que técnicas de vanguarda fossem aplicáveis a uma história tradicional de amor, como a de Wallis Simpson e o rei Edward, mas foi o que Madonna fez, e ele diz que, mesmo discordando, ela assumiu o conceito e o radicalizou. Você pode discutir, mas o argumento de que é incompetente, simplista etc, não cola. Discuti muito com ele a cena que me impressionou – quando Wallis prepara a bebida do futuro rei e os dois ficam num jogo de mãos – e ele disse que aquilo não existia no roteiro e foi pura opção de mise-en-scène da realizadora. Cheguei a invocar aqui no blog o Robert Bresson de ‘Pickpocket’, e o balé das mãos, nas cenas em que o protagonista rouba carteiras de dinheiro. Madonna conhece o cinema de Bresson? Keshishian disse que, com certeza, sim, mas se foi influência, ou referência, só ela para dizer (e eu bem que gostaria de perguntar). A questão, e é aqui que volto a Jack Clayton, é que Madonna tinha no I-Pad (é assim que se escreve?) uma seleção de cenas de filmes, uns 50, que são referências para ela. Muito Godard, quase todo, mas também o ‘Crescei-vos e Multiplicai-vos’, a cena decisiva em que Anne Bancroft descobre a traição do terceiro marido e os dois brigam, que já havia sido dissecada por Pauline Kael. Não é que Madonna tenha copiado, mas uma crítica, e historiadora, como Pauline teria percebido a influência (e é Pinter, sabem, aquele carinha que ganhou o Nobel). Quando digo para vocês que a mulher não é burra…