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Cultura » Buenos Aires é uma festa!

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Luiz Carlos Merten

31 Março 2010 | 10h44

Já estou de volta a São Paulo. Cheguei ontem no meio da tarde e à noite fui ver ‘Cadê os Morgans?’. Êta, filme ruim. Hugh Grant e Sarah Jessica Parker formam o casal de Nova York que vai parar numa comunidade de caubóis de Wyoming. Sarah não é boa atriz, não é bonita – a mais feia das belas, a mais bela das feias? –, mas depois da série ‘Sex in the City’, que a transformou na nova-iorquina típica, foi dar vazão a seu consumismo num feirão de preços baixos que, como ela diz, não existe em Manhattan. Se há uma atriz que sobrevive de banho de butique é ela. Hugh Grant era divertido. O tempo passou, ele acumulou rugas, mas o herói menino é o mesmo de ‘Quatro Casamentos e Um Funeral’, de 1994. Patético. Talvez exagere na crítica, até porque consegui rir em dois ou três momentos, mas a sensação foi de fundo de poço. Ainda não  vi ‘Os Homens que Encaravam Cabras’. Talvez devesse ter ido ver o outro filme, o que espero fazer hoje. Buenos Aires foi ótimo. No primeiro dia, sábado, chegamos à tarde, fomos almoçar – tardiamente – em Puerto Madero. Devo ter comido demais, porque mal consegui dar um passeio rápido pelo centro, Florida & adjascências, e desabei no hotel, acordando volta e meia para uma zapeada na TV. Numa dessas vi pelo menos metade de um filme bastante violento de Renny Harlin, uma espécie de ‘dez Negrinhos’ em que aspirantes a agentes do FBI vão sendo eliminados numa ilha tão sinistra – ou mais – do que a de Martin Scorsese. No domingo, refeito, passeei um pouco mais e vi na Sala Lugones uma comédia legal, como já relatei. No dia seguinte, voltei para ver outra, de Preston Sturges, ‘As Três Noites de Eva’. Estava morrendo de saudade de minha amiga Silvana Arantes, que encerra sua temporada de nove meses como correspondente da ‘Folha’ na capital argentina. Havia tentado deixar recados para ela no celular, sem êxito. Estávamos caminhando em Palermo quando ouço alguém me chamando. Era a Silvana. Qual é a possibilidade de que isso aconteça? Pois aconteceu. Ela foi ver a peça de Dib Carneiro Neto à noite. ‘Adivinhe Quem Vem para Rezar?’ virou ‘Por Tu Padre’, na versão portenha. O que era comédia com Paulo Autran no Brasil virou drama, e bom, com Federico Luppi em Buenos Aires. Dib é meu amigo, mas não há nada suspeito em dizer que a peça dele ganhou outra leitura, mais naturalista, que ressaltou sua dimensão psicológica (ou mesmo psicanalítica). Não vou dizer que ficou melhor, para não ferir susceptibilidades, mas como drama me pareceu mais forte (e emocionante). Buenos Aires está uma festa, não sei se para os argentinos – a pareja Kirchner é jogo duro -, mas eu adoro aquela cidade um pouco folclórica, com aqueles dançarinos de tangos a céu aberto. O Bafici – festival de cinema independente de Buenos Aires – vai a 7 a 18, recheado de atrações (e convidados internacionais). Fiquei morrendo de vontade de voltar, mas tenho uns compromissos agendados – a entrega dos prêmios da APCA, na terça que vem; um debate sobre Alain Cavalier, homenageado do É Tudo Verdade deste ano, no Rio, no fim de semana de 10; uma ida a Salvador dia 21, por conta da minha participação na Rádio Metrópole de lá etc. Mas só de saber que Raya Martin, o diretor de ‘Independência’, estará na Argentina já me dá vontade de voltar, nem que seja a pé (o ‘meu’ Caminho de Santiago). E existe a Broadway local. Ricardo Darín está no palco, numa peça de Yasmina Reza, ‘Art’. Norma Aleandro estrela ‘August’ e, maior atração de todas, Alfredo Alcón, faz um Rei Lear. Alcón foi o ator fetiche da fase final de Leopoldo Torre-Nilsson. Creio que, a partir de ‘Piel de Verano’, de 1961, fez todos, ou quase todos os filmes do diretor, incluindo os épicos (“Martin Fierro’, ‘El Santo de la Espada’, ‘Güemes’) e a adaptação de Manuel Puig (‘Boquitas Pintadas’). Deve ser um Lear poderoso, como eu bem gostaria de conferir.