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Cultura » Budd Boetticher, numa produção John Wayne

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Luiz Carlos Merten

25 Novembro 2007 | 13h48

E, afinal, a caixa não se chama ‘Produzido por John Wayne’, mas ‘Uma produção John Wayne’. É um lançamento da Paramount que vem se somar à outra caixa comemorativa do centenário do Duke, com quatro filmes, incluindo ‘Caminhos Ásperos’ (Hondo), de John Farrow, pai de Mia, que teve sessão especial em Cannes, versão em 3-D e tudo. Os cinco filmes (e não quatro, como escrevi ontem) da caixa são – ‘Sete Homens sem Destino’, ‘O Circo do Medo’, ‘Dominados pelo Terror’, ‘Domínio dos Homens sem Lei’ e ‘Pergaminho Fatídico’. São todos produções da Batjac, empresa produtora que Wayne criou, tomando como referência, para o nome, o barco de ‘O Rastro da Bruxa Vermelha’, de Edward Ludwig, um dos grandes filmes pouco valorizados da história do cinema. O melhor desses cinco filmes é ‘Sete Homens sem Destino’, que tem o título original de ‘Seven Men from Now’. Anos mais tarde, outro western, ‘The Magnificent Seven’, de John Sturges, virou ‘Sete Homens e Um Destino’ nos cinemas brasileiros. No filme da Batjac, os sete homens não têm destino – são assaltantes que roubaram trem da Wells Fargo e agora são perseguidos por Randolph Scott, que está mais interessado em vingar a morte de sua mulher. Lee Marvin faz um dos fugitivos e o filme é o primeiro dos sete westerns que Randolph Scott fez com o diretor Budd Boetticher, numa parceria que André Bazin foi o primeiro a elogiar, chamando atenção para esses filmes B que são todos (todos!) obras-primas do cinema, mais do que simplesmente do western. Boetticher teve uma biografia singular – astro do futebol americano, virou toureador e foi como tal que chegou a Hollywood, contratado para dar assessoria técnica a Rouben Mamoulián, quando o diretor de origem armênia fez ‘Sangue e Areia’, com Tyrone Power, no começo dos anos 40. Encerrada a sua fase de westerns, no começo dos 60, Boetticher fez um poderoso filmes de gângsteres – ‘O Rei dos Facínoras’ (The Rise and Fall of Legs Diamond), com Ray Danton no papel-título (e Jefferson Barros, o grande crítico gaúcho, dizia que esse era o mais brechtiano dos filmes). Só isso já bastaria para colocar Budd ‘Oscar’ Boetticher no céu dos cinéfilos, mas ele ainda fez um documentário sobre touradas que é coisa de gênio – ‘Arruzza’. Vou me desviar um pouco do assunto, mas existe um certo número de filmes sobre touradas que me apaixona, por mais que ache brutal (e violento) o esporte. Um deles é ‘Arruzza’, mas existem também ‘Torero’, do mexicano Carlos Velo; e ‘Il Momento della Verità’, de Francesco Rosi, que no Brasil se chamou ‘Os Bravos da Arena’. (Estou esquecendo deliberadamentre ‘Fale com Ela’, mas é porque a tourada não é o tema do filme de Almodóvar.) Em todos eles há um balé fantástico da câmera, acompanhando os movimentos dos toureiros, e acho que é essa solidão do toureiro diante da morte (o touro) que fazia com que Ernest Hemingway, John Huston e Ava Gardner fossem todos loucos por touradas. É como estar ali dentro da arena, fascinante e assustador. De volta a ‘Sete Homens sem Destino’, o filme termina com um sensacional duelo entre Randolph Scott e Lee Marvin. Como em todo western de Boetticher, e por isso ele virou cult, o mocinho e o bandido são as duas faces da mesma moeda. O bandido, segundo Boetticher, é a projeção negativa do mocinho, que tem essa mesma dimensão ‘sombria’, mas luta para dominá-la (e nem sempre consegue).