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Luiz Carlos Merten

17 Fevereiro 2010 | 22h01

BERLIM – Quase uma da manha aqui na Berlinale. Provavelmente já terá passado da uma quando terminar este post, que escrevo já no dia seguinte de voces aí no Brasil. Mas nao quero deixar para amanha. Acabo de assistir a Bróder, de Jefferson De, que teve sua primeira exibicao no festival dos 60 anos. Broder passou no Zoo Palast, o antigo palácio do festival, uma sala enorme, com mais de 1000 lugares, que estava cheia, mas nao lotada. No final, Jefferson De e seu elenco – Caio Blat, Sílvio Guindane e Du Bronx – receberam um aplauso caloroso. A sessao foi emocionante. Jefferson dedicou-a a Bento, o filho de Caio e Maria Ribeiro, que nasceu – o próprio Caio me contou – no dia em que a producao foi notificada de que Bróder estaria no Panorama de Berlim. Bento virou assim o mascote da carreira internacional do filme. Jefferson falou que a concretizacao do trabalho foi um sonho que se tornou realidade e, dali a pouco, quando as luzes se apagassem, o filme ia comecar e com ele o sonho, de novo, pois essa é a natureza do cinema. O produtor agradeceu à comunidade do Capao Redondo, aí em Sao Paulo, que colaborou de muitas formas para viabilizar o sonho de Jefferson. O cinema brasileiro tem contado muitas histórias de favela e quase sempre sao cineastas brancos, de classe média, que lancam seu olhar sobre esse espaco da realidade brasileira. Jefferson é negro e olha a favela de dentro. Isso faz uma diferenca e tanto (toda?). Ele nao filma a violencia, embora ela esteja presente, como fundo. O filme é sobre relacoes – de amizade, de família, de poder. Passa-se neste dia em que o personagem de Caio comemora seu aniversário. Para pagar uma dívida, ele vai se integrar a um plano arriscado, o sequestro de uma crianca. Mas justamente neste dia Jaiminho, o garoto da favela que virou astro do futebol na Espanha volta às origens, para a festa. Reencontram-se Caio, Jaiminho e Sílvio (Guindane), cujo personagem também deixou a favela, mas permanece na selva da cidade (seu pequeno apartamento abre-se para o Minhocao). Uma mudanca de planos vai fazer com que Jaiminho, o jogador, seja a nova vítima do sequestro. E aí, bróder? O filme é forte, ritmado pela música de Jorge Ben e pelo rap de Sabotage, a quem é dedicado. Jefferson agradeceu a uma pessoa que devia estar na plateia, mas nao o vi, José Carlos Avellar. Foi Avellar quem lhe disse que inscrevesse o filme na Berlinale, porque havia nele alguma coisa – de estética e discussao política e social – que esse festival saberia reconhecer, como realmente está fazendo. É tarde, preciso dormir, mas só vou acrescentar que a quarta foi legal. No final da tarde, entrevistei Sylvain Chomet, o diretor de Bicicletas de Bellevue, que está aqui mostrando seu novo filme, O ILusionista, baseado num roteiro que Jacques Tati escreveu nos anos 1950. O ilusionista nao é bem M. Hulot, mas é Tatischeff, antes de virar Tati, no seu tempo de music hall. Quando a filha do grande autor comico, Sophie, lhe repassou o roteiro do pai – e ela morreu em seguida, sem ver o filme -, disse a Chomet que nao gostaria de ver um ator fazendo o papel de seu pai. Chomet fez o que sabe melhor – uma animacao, em que Tati é impregnado de referencias a Monty Python e Chaplin (Luzes da Ribalta). A PlayArte vai distribuir O Ilusionista no Brasil. Espero que nao tarde a lancá-lo (e sorry pela falta de acentos e cedilhas).