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Luiz Carlos Merten

16 Outubro 2006 | 09h59

Fui ver Cauby, Cauby, na sexta-feira à noite, e saí do teatro com uma sensação curiosa, sem saber direito se havia gostado ou não. Achei que a peça tinha uma estrutura convencional (o jornalista que serve como fio condutor), mas gostei do Diogo Vilella e, principalmente, da atriz e cantora que faz Lana Bittencourt (e que achei espetacular, chama-se Sílvia Massari). Pois bem, ontem fui ver Sweet Charity e, retrospectivamente, Cauby Cauby me pareceu uma obra-prima. Não quero ser desmancha-prazeres de ninguém, principalmente dos meus colegas Antônio Gonçalves Filho e Ubiratan Brasil, que adoraram, mas não tenho a menor paciência com esses musicais clonados da Broadway. Na saída, guardei a frase de uma senhora – é pura Broadway! Ela gostou por isso, eu detestei por isso. Sinto muito, mas já vi alguns musicais na Broadway (não muitos e não o Sweet Charity) e não há clonagem que reproduza o que os gringos têm know-how para fazer (e fazem há décadas). Devo ser um cara estranho. Pertenço a uma geração que amava os musicais, mas eu confesso que sempre preferi os westerns. Gosto de poucos – Cantando na Chuva, claro, Sinfonia de Paris e Agora Seremos Felizes, do Minnelli, e My Fair Lady, do Cukor. Gosto de Moulin Rouge, do Baz Luhrmann, mas é outro compartimento. Tenho visto todos esses musicais, tipo Broadway no Brasil (A Bela e a Fera, Chicago e O Fantasma da Ópera) porque, afinal, todos têm o pé no cinema. Gosto de As Noites de Cabíria, embora não seja o meu Fellini preferido, e acho que Charity, Meu Amor tem momentos de genialidade do Bob Fosse – a montagem fluida e plástica de Big Spender, a vitalidade de Rhythm of Life (com aquele Sammy Davis Jr. em grande forma). Mas me aborreci com a trilha, o humor de Sweet Charity, a peça. Todo mundo berra, querendo nos convencer que cantam bem (vejam Cauby- Cauby para saber o que é cantar, vejam) e eu não gosto, particularmente, sorry, daquela apoteose dos chorus boys carregando a estrela nem da corridinha dela, avançando do fundo do palco para a boca de cena, para o agradecimento final, que é mais ou menos como dizer – todo o resto aqui é lixo, quem abafa sou eu. Antônio Fagundes também tem isso, aquela corridinha de astro teen, com a malha no ombro, no final de As Mulheres da Minha Vida. Gostem o quanto quiserem, mas estou fora. Agora, confesso uma coisa. Não deixo de admirar a Cláudia Raia. Ela sobrevive a tudo. Fez campanha pro Collor, coisa que acabou com a carreira de uma atriz muito melhor que ela (Teresa Rachel), foi casada com o Alexandre Frota e não ficou estigmatizada por isso, casou-se com Edson Celulari e virou ‘a’ chique e famosa. Pode ser que eu exagere. Estava com um pessoal do jornal que achou a Cláudia muito divertida. Eu senti falta do texto do Sílvio de Abreu. Nasceram um para o outro. Cláudia é ótima nas cenas de sacanagem com o Giannecchini em Belíssima. Até as cenas de frescura do Cauby me pareceram mais autênticas. Sei que não vou mudar a opinião de ninguém sobre Sweet Charity, mas se puder levantar um pouquinho a platéia do Cauby, Cauby (as últimas filas estavam vazias, na sexta) já vou ficar feliz.