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Luiz Carlos Merten

30 Abril 2008 | 12h33

RECIFE – Nunca me considerei brizolista, mas é incrível como ontem, asistindo ao filme de Tabajara Ruas, ‘Brizola – Tempos de Luta’, eu tenha achado uma madeleine para viajar no meu tempo interior. Brizola fez parte da minha infância e juventude. Eu estava lá na Praça da Matriz, em Porto Alegre, em plena campanha da Legalidade. O filme provocou polêmica. Tabajara tomou pau agora na coletiva pela manhã. Foi acusado de fazer um filme ‘unilateral’. Terminei saindo em sua defesa. Brizola já foi tão criticado que o Taba pode muito bem, como artista, fazer o filme que quiser sobre ele. É uma característica do jornalismo que não precisa ser absorvida pelo documentário, a isenção. Pode ser que o filme ficasse mais rico e complexo narrado em outro formato, com mais picuinhas sobre o biografado, que foi, no fundo, o que mais cobraram do diretor. Mas eu entendo o partido de Tabajara Ruas, que foi meu colega na Faculdade de Arquitetura de Porto Alegre. Como escritor e diretor – ‘Netto Perde Sua Alma’ -, ele vem investigando a mitologia gaúcha. O Brizola que lhe interessa é o do mito. Ele emerge de ‘Tempos de Luta’ como um herói fordiano que vive, como nos grandes filmes do mestre, a grandeza dos derrotados. Toda a arquitetura do filme converge para um momento de tragédia, quando Brizola, difamado pela Globo, conseguiu direito de resposta no ‘Jornal Nacional’. Cid Moreira leu a carta de Brizola – um panfleto – que é, até hoje, dentro da legalidade, o maior tapa na cara que a emissora já recebeu. Cid é, ele próprio admirável. Encarna a derrota da emisora. O outro lado do herói derrotado de John Ford. O público do Cine PE prorrompeu em aplausos. Imagino que, se o filme passase nos cinemas, a reação seria a mesma. Mas ‘Brizola – Tempos de Luta’ foi produzido pela Petrobrás e, nos termos do acordo, não pode ser exibido no circuito comercial. Qual será o futuro deste filme? Polêmica ele iria despertar, mas a emoção popular daquele féretro passando pelas ruas do Rio e, depois, Porto Alegre, é a prova de que Brizola, se foi odiado, também foi, e muito, amado. Aquele cara que chora dizendo que Brizola lhe deu educação e o tirou das ruas é uma coisa emocionante. Até comentei com o Zanin, meu colega Luiz Zanin Orichio, que está aqui do meu lado, na sala de imprensa do Cine PE. O filme de Tabajara Ruas me fez lembrar muito de Carlos Lacerda. Ambos políticos – um de esquerda, outro de direita – que pareciam destinados à presidência do Brasil. Dois destinos truncados, e pelo mesmo movimento de 64. O presidente Fernando Henrique Cardoso diz que o golpe foi mais contra Brizola do que contra Jango e Jarbas Passarinho admite que o que ‘fizemos’ – eles, os militares e seus acólitos políticos – foi inconstitucional. Aliás, Passarinho – agora vou misturar alhos com bugalhos -, que era pró-golpe, tem a decência de assumir seus atos e em outro documentário, ‘Operação Condor’, que estréia amanhã, diz que “nós – os militares, de novo – almoçamos eles (a esquerda revolucionária) antes que eles nos jantassem”. Muito interessante essa discussão toda.