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Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2008 | 15h50

Beatriz, da BSC Assessoria, me manda regularmente suas sugestões de destaques para a coluna de filmes da TV no ‘Caderno 2’. Beatriz divulga o canal 5 Monde e hoje não resisto a postar alguma coisa sobre ‘Jogos Proibidos’, de René Clément, que o canal da TV paga exibe às 21h30. Clément foi um daqueles diretores de ‘prestígio’ que a nouvelle vague, via ‘Cahiers du Cinéma’, teve de aviltar e desmontar da história como parte da afirmação programática do movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960. Hoje em dia é fácil falar mal de Clément, que morreu em… e cuja última fase foi mesmo marcada por filmes, quase sempre policiais, de um gélido e artificioso profissionalismo. Mas nos anos 40 e 50, ele era o cara. Clément dominava tanto a técnica que Jean Cocteau chamou-o para ‘compartilhar’ com ele a realização de ‘A Bela e a Fera’. Nos primeiros anos do Festival de Cannes, quando ainda não havia a Palma de Ouro, ele recebeu duas vezes o Grand Prix, em 1946 e 47, por ‘A Batalha dos Trilhos’ e ‘Os Malditos’. Pelo primeiro, recebeu também o prêmio de direção, que repetiria em 1949, por ‘Au-Delà des Griffes’, e 1954, por ‘Monsieur Ripois’. Três prêmios de direção e dois Grand Prix em Cannes não são para qualquer currículo, mas Clément também foi fartamente recompensado em Veneza. Em 1952, ganhou o Leão de Ouro justamente por ‘Brinquedo Proibido’ – o título original é ‘Jeux Interdits’ – e quatro ou cinco anos depois ele voltou a ser premiado por ‘Gervaise’, sendo que a sua adaptação de ‘L’Assomoir’, de Émile Zola, valeu a Maria Schell a prêmio de interpretação feminina (e certamente deve ter contribuído para que Visconti contratasse a atriz para o seu Dostoievski, ‘Noites Brancas’, que no Brasil foi lançado como ‘Um Rosto na Noite’). Numa entrevista que fiz com Claude Chabrol, ele admitiu que sua geração detestava nos chamados diretores de qualidade aquilo que faltava a Truffaut, Godard & Cia., ou seja, domínio técnico. Tudo bem que foi a ausência de conhecimento técnico que permitiu a muitos autores da nouvelle vague ousar (e revolucionar o próprio cinema), mas Chabrol, bonachão e com o distanciamento critico, reconhece que o ódio foi excessivo e muitos daqueles cineastas eram mais interessantes do que rezava a Bíblia de ‘Cahiers’. Seja como for, em 1959 Clément realizou a melhor adaptação de Patricia Highsmith, transformando Alain Delon no Ripley de ‘O Sol por Testemunha’. A própria escritora sempre achou Delon o melhor intérprete de seu escroque e eu me lembro da ironia de P.F. Gastal na ‘Folha da Tarde’ e no ‘Correio do Povo’, quando dizia que o veterano Clément e não a nova onda fazia o mais jovem cinema francês daquela época. Numa coisa eu acho que Clément deu de dez no próprio Visconti, meu mestre. Enquanto Visconti esculpia o mito da bondade e do idealismo de Rocco na epiderme de Delon, Clément foi o primeiro a perceber a dureza das linhas do rosto do ator, abrindo a via para que Jean-Pierre Melville fizesse com ele ‘O Samurai’. Até hoje sou suscetível à força de ‘Plein Soleil’, onde não apenas Delon, mas tambem Maurice Ronet é excepcional e o filme ainda tem bela e sexy Marie Laforet no papel de Marge. Tenho também certo fascínio por ‘O Passageiro da Chuva’, que Clément adaptou de Sébastien Japrisot em 1969, com Marlène Jaubert como Mélancolie e com Charles Bronson num de seus primeiros papéis (o primeiro?) como astro. Marlène matava o homem que tentara estuprá-la e Bronson era o detetive que tentava extrair dela uma confissão, embora seu interesse maior fosse pela sacola cheia de dinheiro que o tal passageiro da chuva carregava. Toda essa conversa sobre Clément é para lembrar que o filme que será possível (re)ver hoje integra uma trilogia sobre a 2ª Guerra, fechando o que o diretor havia iniciado com ‘A Batalha dos Trilhos’ e ‘Os Malditos’. A guerra vista pelos olhos de duas crianças, num testemunho lúcido e poético. Nosso querido Jean Tulard chega a chamar Clément de ‘poeta da Resistência’ e a lendária crítica norte-americana Pauline Kael afirmava que este filme e ‘A Culpa dos Pais’ (I Bambini ci Guardano), de Vittorio De Sica, de 1942, são os que melhor expressam o antagonismo e a desolação que separam a infância da vida adulta. Sou forçado agora a admitir que conheço razoavelmente a obra de Rene Clément, mas nunca assisti a seu filme de hoje, o que significa que se trata de uma oportunidade excepcional para todos nós. Como curiosidade, em 1963, Clément fez outro policial com Delon, chamando duas atrizes norte-americanas para completar o elenco central de ‘Les Félins’, que aqui se chamou ‘Jaula Amorosa’. Lola Albright foi uma atriz que fez furor na época, com um filme chamado ‘Rajadas de Paixão’, de Alexander Singer, mas foi a outra, a jovem Jane Fonda, que virou mito. Clément apresentou Jane Fonda à França (e vice-versa), ela se casou com Roger Vadim e o resto é história. A importância de Clément vai além dos próprios filmes que realizou, portanto.