As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Brincante, brinquedo, brincador

Luiz Carlos Merten

22 Junho 2014 | 23h50

Havia redigido boa parte do post anterior enquanto assistia a EUA e Portugal, o primeiro tempo. Saí para ir ao cinema, voltei, concluí o post. E agora relato minha epifania. Não, não foi com o resultado do jogo, mas com o filme que vi. Em 2000, já se vão 14 anos, a cineasta gaúcha Liliane Sulzbach fez um filme (média-metragem) muito bonito, chamado A Invenção da Infância. Liliane investigava a tal invenção, mas o filme dela era principalmente uma denúncia das desigualdades sociais que privam tantas crianças pobres do direito à infância. Mas isso era só meio filme. Liliane criticava o trabalho infantil, o abuso, o abandono, mas o filme dela, no limite, também mostrava como crianças de famílias abastadas, sem problemas de sobrevivência, também perdem a infância no acúmulo de atividades, físicas e intelectuais,  com que os pais tentam aparelhá-las para o futuro. Era um belo filme e, no começo de Tarja Branca – pois é desse que quero falar -,  tive a impressão de que Cacau Rohden estava um pouco repetindo Liliane. Todos aqueles entrevistados evocam suas experiências de infância e fica claro que brincar fornece ferramentas que serão muito importantes para os adultos em que essas crianças se transformaram. O filme começa assim, com brincadeiras de crianças, e se torna progressivamente mais complexo, investigando o mundo adulto. Quem não matou a criança dentro de si, quem a conserva. Já que estamos na Copa do Mundo, poderíamos ter tido o depoimento de algum jogador, ou de especialistas que dissessem que o esporte guarda esse caráter lúdico e ‘play’, jogar, atuar, são múltiplos os sentidos, é uma forma de contemplar as crianças que fomos (e podemos continuar sendo). Mas o filme é muito bacana. Investiga principalmente o mundo da cultura popular, onde valores ancestrais – e brincadeiras – são transmitidos de geração a geração de ‘brincantes’. Talvez o filme termine muitas vezes e os depoimentos comecem a se repetir, a ficar redundantes, mas achei o filme tão bonito, tão emocionante que chorei e me reportei a minhas leituras, a meus jogos e à felicidade que era subir em árvores e comer frutos (sem lavar), enquanto lia. Li muito Tarzan pendurado em galho de árvore, e com uma mão só, vejam como são (ou eram) as coisas. Gostei demais de Tarja Branca e gostaria que todos vocês vissem esse filme tão rico. Sinceramente, não me lembrava quem era Cacau Rohden e fui pesquisar. Descobri que já conhecia dois de seus curtas – Infinitamente Maio, codirigido por Marcos Jorge, uma história de vingança que talvez tenha mais a ver com a antropofagia de Estômago, e Meninos de Areia, esse, sim, uma história sobre crianças que mantêm um relacionamento ambíguo. Coisa boa quando a gente vê um filme que nos instiga tanto. Ocorreu comigo e com Dib Carneiro, que foi comigo. Dib é crítico de teatro infantil, tem livros sobre o assunto. Por mais lúdico que possa ser o teatro infantil, é coisa muito séria para ele. No final, encontramos Evaldo Mocarzel. Foi até engraçado ver como cada um buscava mais motivar o Evaldo paras também ver Tarja Branca.