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Luiz Carlos Merten

14 Setembro 2009 | 11h51

Conversei há pouco pelo telefone com Brillante Mendoza, que ainda está na Europa, depois de haver participado do Festival de Veneza com seu novo filme, ‘Lola’. Havia me encontrado com o diretor filipino em Cannes, onde ele concorreu – e foi premiado – com ‘Kinatay’. Disse-lhe que Isabelle Huppert está em São Paulo e que provavelmente a encontrarei hoje. Ele me pediu que lhe transmitisse seu abraço, porque ouviu que Isabelle foi grande defensora de seu filme, no júri que presidia. ‘Kinatay’ é um dos filmes que integram a programação do Indie 2009, Mostra de Cinema Mundial em São Paulo, que começa na sexta. O filme vai dar o que falar, isso, naturalmente, se o público for vê-lo, porque eu confesso que tinha uma expectativa maior pela reação da plateia da Mostra (de São Paulo) ao trabalho anterior do cineasta, ‘Serbis’, sobre aquele cinema decadente em Manila. Mas acredito que a coisa desta vez tem chances de funcionar melhor, até porque o próprio Brillante estará no sábado na cidade, no CineSesc, para um bate-papo com o público. Vão lá, porque Brillante é fogo – ‘Kinatay’ é uma das experiências mais intensas e exasperantes do cinema recente no trabalho sobre o tempo – e as Filipinas têm hoje um dos cinemas mais interessantes do mundo. Em Cannes, este ano, além do Brillante na competição, havia o Raya Martin na mostra Un Certain Regard com ‘Independencia’, que ‘Cahiers du Cinéma’ considerou o melhor filme do evento, se fosse para escolher apenas um. Por mais que tenha gostado do filme, e gostei, se fosse para escolher apenas um seria o ‘Tetro’, meu Coppola favorito em anos, diria até em décadas, desde ‘O Poderoso Chefão 3’, em 1990. O cara, Brillante, é tão fogo que fez ‘Lola’ depois de Cannes, filmando rapidamente, como gosta de fazer, mas como ele diz, se a filmagem é ‘fast’o processo criativo é bem mais lento e ele pensa muito, repassando o filme várias vezes na cabnweça antes de passá-lo pela câmera (não disse com essas palavras, mas era a ideia). Por falar em Veneza, não acompanhei o festival, que terminou sábado, com a vitória do israelense Samuel Maoz, com seu filme’Lebanon’. A guerra do Oriente Médio vista do ângulo de quatro soldados iraelenses no interior de um tanque? Hummm, já vi este filme – chamava-se ‘A Fera da Guerra’ e, em vez do Líbano, passava-se no Afeganistão, os soldados eram russos. Espero ser surpreendido, mas duvido que ‘Lebanon’ consiga ser melhor do que ‘The Beast’, do Kevin Reynolds, um dos grandes filmes pouco valorizados não só dos anos 80, mas da história do cinema. Colin Firth foi melhor ator por ‘A Single Man’ e em Cannes, ao entrevistá-lo por ‘A Christmas Carol’ – a versão de Robert Zemeckis –, ele já havia manifestado entusiasmo maior por este outro filme, no qual faz o papel de um gay maduro, que perde o companheiro de, sei lá quantos anos, 20?, num acidente. O próprio filme de Tom Ford, adaptado de Christopher Isherwood, era um dos favoritos ao Leão de Ouro, mas ficou com o Leoncino Gay. Espero que o Festival do Rio traga esses filmes – e outros da mostra veneziana –, para que eu possa vê-los antes da Mostra de São Paulo, em outubro.