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Luiz Carlos Merten

06 Abril 2007 | 23h36

PORTO ALEGRE – Começou, acho que quarta-feira, no CCBB, de São Paulo (estava fora), o ciclo Robert Bresson e o Cinema Contemporâneo. Eu amo Bresson, mas este entusiasmo não me impede de gostar de cineastas que se situam nos antípodas do mestre francês da transcendência – o Baz Luhrmann de Moulin Rouge, por exemplo. Brigava muito com meu ex-editor, Evaldo Mocarzel (que traduziu os aforismas de Bresson para o português). Detesto toda forma de maniqueísmo ou reducionismo ético e estético. Sem essa de ter de escolher entre Bresson e Baz Luhrmann (que o Evaldo considerava uma excrescência dramatúrgica). Mas, enfim, temos aí o ciclo com filmes de Bresson e os de autores por ele influenciados. Bresson é o artista, para mim, de quatro grandes filmes – O Diário de Um Pároco, Um Condenado à Morte Escapou, Mouchette a Virgem Proibida e A Grande Testemunha (Au Hasard Balthasar), do qual falei outro dia, a propósito do livro Platero y Yo, de Juan Ramón Jimenez, que li no avião, voltando do México. Tirando a poética (a famosa poesia em prosa), isto é, o estilo, o burrico de Jimenez tem tudo a ver com o de Bresson. O olhar de ambos é o filtro pelo qual os autores refletem sobre a complexa condição humana. Jean Tulard diz, no seu Dicionário de Cinema, que o ideal de Bresson é um ator recitando, com voz monocórdica, sobre um fundo de parede brancas, o Discurso do Método, de Descartes. É meia verdade, pois esse rigor (jansenismo?) da mise-en-scène não revela o tema – todo filme de Bresson trata da graça, que só pode ser atingida pela extrema incomunicabilidade. O rigor, o ascetismo, tudo o que, no fundo, é exterior a Bresson o aproxima de Susana Amaral (Uma Vida em Segredo), Bruno Dumont (A Humanidade), Bertand Bonello (Tirésia) ou Manoel de Oliveira (O Espelho Mágico), que passam no ciclo do CCBB. Acho que o mais bressoniano dos diretores contemporâneos, Tsai Ming-liang, é capaz de fazer um musical extravagante que parece nada ter a ver com a graça bressoniana, mas no fundo ela está lá. É só (re)ver o filme das nuvens e da melancia. Não me decepcionem. Vocês sabem qual é.