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Luiz Carlos Merten

13 Abril 2008 | 13h43

Há 15 anos, numa das tantas vezes em que esteve no Brasil, Charles Aznavour disse que a canção francesa havia acabado no mundo. Até por isso, ele seria, segundo os críticos e repórteres que assinavam as reportagens selecionadas na pasta do ator e cantor, no Arquivo do ‘Estado’, um ‘dinossauro’. Em 1993! Outros adjetivos aplicados a Aznavour – ‘romântico’, ‘brega’. Pode até ser que a canção francesa tenha mesmo acabado, mas outro motivo que me impede de ir ao Cine Ceará é a possibilidade de assistir ao show de Aznavour em São Paulo, na quinta, dia 17. Aznavour faz parte da minha memória afetiva e cinematográfica e eu tanto já o odiei como passei a amar, depois. Em 1960, não sei mais que júri criminoso – já falei aqui, vocês me disseram, mas eu esqueço, de raiva – premiou ‘A Passagem do Reno’, de André Cayatte, com o Leão de Ouro em Veneza, deixando de atribuir o prêmio ao meu querido ‘Rocco’, de Visconti. Cayatte, que Truffaut ironizava – dizia que o povo do cinema o considerava um advogado e os advogados, um cineasta -, melhor do que Visconti? Nonsense. Um disparate. Seja como for, eu era muito jovem quando ‘A Passagem do Reno’ estreou em Porto Alegre e tomei como uma ofensa pessoal a existência, que dirá a premiação, daquele filme do Cayatte com Aznavour. Contemporâneo de ‘A Passagem’, Truffaut fez ‘Ne Tirez pas sur le Pianiste’ e aí eu comecei a achar o Aznavour mais interessante. Ele era tão feio, o pobre, que só podia virar um durão no cinema francês. Fez policiais e filmes românticos – lembro de ‘Breve Encontro em Paris’, de Pierre Granier-Deferre – e, bem mais tarde, filmes de prestígio, como ‘O Tambor’, de Volker Schlondorff, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, e ‘Ararat’, de Atom Egoyan, no qual fazia um armênio (o que é, na realidade). Com o tempo, Aznavour me conquistou, com seu carisma, seu romantismo, sua simpatia e, claro, sua voz. Em 1975, Robert Aldrich fez ‘Crime e Paixão’, um de seus filmes de que pouquíssima gente gosta, com Burt Reynolds e Catherine Deneuve (numa de suas raras incursões por Hollywood). O filme se chama ‘The Hustler’, no original, e Aldrich usa a cabeleira loira de Catherine, como uma garota de programa, para estimular o fetiche do tira durão (Reynolds, com quem ‘le gros Bob’, como diziam os franceses, havia feito em 74 o superior ‘Golpe Baixo’). Faz tempo que não vejo ‘Crime e Paixão’, mas tem uma cena que me marcou muito. Ela mostra a bela Catherine ao som de ‘She’, cantada por Charles Aznavour, em inglês. O que era aquilo? O que era aquela mulher? O que era a voz daquele homem? Uma coisa ‘sinatreana’, pelo menos na minha cabeça, tornando inesquecível uma música que, no limite, é bem brega. Espero que o show de Aznavour em São Paulo seja tão prazeroso quanto o de Jane Birkin, outra sobrevivente da (desaparecida) canção francesa.