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Luiz Carlos Merten

15 Novembro 2006 | 20h29

Há uma concentração de produções nacionais nas estréias de depois de amanhã. A melhor é O Céu de Suely, de Karim Aïnouz, com Hermila Guedes, mas também gostei bastante de Canta Maria, de Francisco Ramalho Jr., que foi, para mim, uma surpresa. Não que não acreditasse na possibilidade de o Ramalho, que nos últimos 20 anos foi prioritariamente produtor de Hector Babenco, realizar um bom filme. Mas confesso que não conhecia o romance de Francisco J. C. Dantas, do qual o diretor tirou essa história de triângulo amoroso que me emocionou tanto. Conversamos, Luiz Zanin Oricchio e eu, com o Ramalho, agora à tarde, na redação do Estado, e ele contou como tirou de um livro barroco, com muitos personagens e no qual a própria escrita vira dramaturgia, a história de Maria, Filipe e Coriolano. O filme estréia com 38 cópias, lançamento pequeno (médio?)que o próprio Ramalho está bancando, com a participação da distribuidora Califórnia. Canta Maria estréia de São Paulo para o Nordeste. Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre ficam de fora dessa primeira etapa. Tomara que o filme encontre seu público, pois tem qualidades. O mais interessante destacar é que, embora diferentes, os dois filmes constróem-se em torno das personagens femininas e, se Karim Aïnouz é mais intimista, Ramalho não deixa de impregnar seu épico de muito intimismo, contando a história desse trio contra um pano de fundo de guerra (entre cangaceiros e volante, uma tropa especial de soldados, no sertão nordestino). Existem mais dois nacionais na sexta-feira. O documentário Família Alcântara, meia-metragem de Daniel e Lílian Solá Santiago, que terá como complemento o curta Carolina, de Jeferson De, e a ficção Vestido de Noiva, que Jofre Soares adaptou da peça do pai dele, Nelson Rodrigues. Confesso que não gostei nem um pouco do Vestido e, mesmo com o risco de parecer ofensivo – o que, realmente, não gostaria de ser –, acrescento que, se o ridículo matasse, a grande Marília Pêra nos privaria de seu talento, porque achei a Madame Clessi dela o caos. Por mais que se possa formular uma teoria do caos, coisa que Rogério Sganzerla e escritores como Tolstoi e Stendhal fizeram (os dois últimos ao falar sobre a guerra, em Guerra e Paz e A Cartuxa de Parma), ela não ajuda em nada o filme do Jofre. Acho bonito o curta do Jeferson De sobre Carolina Maria de Jesus, mas já disse ao Jeferson, a quem respeito (e admiro)que, no fim, fiquei com a sensação de que talvez tivesse sido melhor se, em vez da autora de Quarto de Despejo, ele tivesse filmado a filha dela. Carolina e Família Alcântara tratam da participação do negro na cultura (e na força de trabalho) brasileira. Gostei um pouco menos da Família, que me pareceu meio burocrático como documentário, mas acho que os dois filmes formam um bloco interessante para se discutir a negritude no Brasil.

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