Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Brasileiros em Paris

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Brasileiros em Paris

Luiz Carlos Merten

10 Maio 2009 | 09h51

PARIS – Assisti ontem à noite a uma sessão dupla do Festival de Cinema Brasileiro de Paris. É a 11ª edição do evento, que ocorre no Nouveau Latine, um cinema de arte do 4ème, na região Hotel de Ville, a meio caminho entre Notre Dame e o Beaubourg. A sala tem em torno de 200 lugares. Estava quase cheia no primeiro filme, ‘Jardim Ângela’, de Evaldo Mocarzel, cuja apresentação foi seguida por um debate com o diretor, e lotou para ver ‘O Homem Que Engarrafava Nuvens’, de Lírio Ferreira, sobre Humberto Teixeira, parceiro do lendário rei do baião, Luiz Gonzaga. Os filmes sobre música brasileira atraem muito os europeus. Antes do filme do Evaldo, ‘O Mistério do Samba’ também teve casa (quase) cheia. O festival dura duas semanas, no ano passado teve três porque era a 10ª edição e incluiu uma programação de clássicos. Conversei com Kátia Adler, da ong Jangada, que criou (e dirige) o festival. Seu sonho era distribuir filmes brasileiros na França. Na impossibilidade de realizá-lo – no começo dos anos 90 não havia produção -, ela virou diretora e criou o Festival du Cinéma Brésilien. Quando desembarquei em Paris, na terça à noite, a parte ficcional estava terminando, com a exibição do último filme, ‘Feliz Natal’, de Selton Mello, que aqui se chama ‘Décembre’. O que rola agora é a parte documentária, até terça. Evaldo Mocarzel foi meu editor no ‘Caderno 2’. Brigávamos feito cão e gato – ele detestou ‘Moulin Rouge’, de Baz Luhrmann, que chamava de excrecência estética. Eu, para provocar, escrevi uma crítica misturando Luhrmann e dois autores que o Evaldo idolatrava, Lars Von Trier e Robert Bresson. Mas, atenção, o fato de brigarmos (por idéias) não significa que não nos respeitássemos nem fôssemos amigos. Somos até hoje e foi um reencontro caloroso. Ele tomou um susto quando me viu na platéia. ‘Jardim Ângela’ nasceu de uma oficina que o Evaldo ministrou na região paulistana do título, para a organização Kinoforum, de Zita Carvalhosa, que organiza o Festival Internacional de Curtas. Não era a intenção dele fazer um filme, mas o projeto surgiu de uma polarização no grupo de estudantes. Um garoto, chamado Washington, adorava rap, ‘Cidade de Deus’. Ele puxou o filme feito pelo grupo, uma ficção, para uma coisa mais espetacular. Uma menina o acusa justamente de ‘espetacularizar’ a violência. O filme que ele quer fazer é violento, sangrento. Ela quer dar uma esperança às pessoas. ‘Jardim Ângela’ trata desse conflito. Achei interessante a discussão sobre a representação da realidade na tela – documentário, ficção -, mas o filme tem mais a pegada dos estudantes que descobrem a linguagem do que do Evaldo, que não para de filmar (e poderia ter evitado certo didatismo, certa simplificação). Houve um debate que levantou questões importantes, embora ache que também poderia ter sido melhor se o Evaldo não insistisse em falar francês (ela próprio admitiu que estava ‘enferrujado’). Evaldo contou a história de Washington após o filme. Ele virou chefe de um grupo no tráfico, sofreu um atentado, foi crivado de balas mas sobreviveu. Descobriu a religião. O filme ‘positivo’ que a garota queria fazer como ficção dentro de ‘Jardim Ângela’ talvez rendesse um documentário – outro documentário – que Evaldo não quis fazer, sobre o Washington. Ia sair para jantar com o Evaldo, a mulher dele, Lelê, e com Alain Fresnot, que também está aqui e produz o novo filme que o Evaldo co-realiza com Walter Carvalho, sobre Raul Seixas. Deixei o jantar para hoje para poder ver ‘O Homem Que Engarrafava Nuvens’. Gostei muito, mesmo achando que o filme talvez seja um pouco longo, mas pensei comigo o que cortaria e cheguei à conclusão de que nada. Ou seja, não é longo porra nenhuma. Ando na contramão do cinema dos pernambucanos. Não gostei muito de ‘Baile Perfumado’, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, nem de ‘Amarelo Manga’, de Cláudio Assis, que os coleguinhas colocaram nas nuvens. Em compensação, viajei com os filmes seguintes de todos eles, ‘O Baixio das Bestas’, ‘Árido Movie’ – mesmo achando discutível aquela performance no final – e até com ‘Deserto Feliz’, do qual não havia gostado muito quando o vi pela primeira vez em Berlim, mas depois… São filmes que devo ter visto umas quatro ou cinco vezes cada, todos muito melhores como mise-en-scène. Aliás, são filmes muito bem dirigidos, ao contrário de ‘Baile Perfumado’, de Lírio e Paulo Caldas, que é narrado com regras mínimas (se não tivesse a música de Chico Science para segurar, teria desandado). ‘Árido’ e o documentário de Lírio Ferreira sobre Cartola – ‘Música para os Olhos’ – deram um salto na carreira dele, que ‘O Homem’, agora, confirma. O filme é produzido por Denise Dumont, filha de Humberto Teixeira. No início, falando para a câmera, ela diz que não conheceu o pai. Humberto tinha áreas sombrias nas quais Denise nunca conseguiu penetrar, mesmo tendo sido criada por ele, depois que o compositor (e político) se separou de sua mãe. E Denise diz que talvez seja bom – que a gente, talvez, não precise saber tudo sobre o outro, sobre o pai, por exemplo. Mas, no final, depois de ouvir todos aqueles depoimentos sobre o grande artista e sua importância – Humberto Teixeira compôs ‘Asa Branca’, pelamor de Deus! -, ela pede à mãe que a ajude a decifrar o mistério do homem. É um filme sobre o qual poderia ficar falando horas. Além das várias versões de ‘Asa Branca’ e ‘Assum Preto’, a internacionalização do baião, nos anos 50, permite que Lírio Ferreira inclua imagens de Silvana Mangano cantando – em espanhol! – o baião de Ana no filme homônimo (‘Ana’) de Alberto Lattuada. Quase tive um troço. Era garoto quando vi ‘Ana’, em Porto, no cine Rival. Não sei nem como consegui entrar, porque acho que o filme era proibido, mas a Silvana daquela época era um monumento de carnalidade, antes de ser, como vou dizer, ‘sacralizada’ por dois notórios homossexuais, além de artistas e intelectuais de gênio, Visconti e Pasolini. Basta comprar a exuberante Silvana Mangano de ‘Arroz Amargo’, com aquelas coxonas, com a etérea mãe de Tadzio em ‘Morte em Veneza’… Nestes três ou quatro dias que estou em Paris, tenho visto muita propaganda de uma exposição ‘Divas (e Divos) Italianos’, ilustrada por fotos de Claudia Cardinale e Marcello Mastroianni. Se é sobre divas, tem de ter Silvana Mangano. Vou amanhã correndo conferir. O filme de Lírio e Denise, a par de sua riqueza e complexidade na abordagem de uma dinastia da música brasileira – é assim que Gilberto Gil se refere ao baião -, resgata um artista único e personagem multifacetado (neste sentido, me parece legítima a comparação com ‘Lóki’, sobre Arnaldo Batista, que também amei). Além de tudo isso, ainda me trouxe Silvana Mangano. Chega, tenho de almoçar. Fiquei horas limpando minha caixa e validando comentários. Graças a ‘O Homem Que Engarrafava Nuvens’ e à missa de orgão em Notre Dame, que não resisti e fui ver pela manhã – pela estética, mais do que pela fé, sorry -, I’m in heaven neste domingo, em Paris.