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Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2007 | 16h07

Flávia Guerra, que acaba de voltar da folga de réveillon, me conta que encontrou no Rio um cara bacana, diretor de um curta brasileiro que vai para Sundance. O festival ocorre de 18 a 28 deste mês. Flávia me disse o nome dele, Fellipe Gamarano Barbosa, que confesso que não me disse muita coisa. Perguntei qual o curta? É Beijo de Sal – e este eu conheço. Vi Beijo de Sal no Festival de Gramado, em agosto, na mesma noite em que passou o curta do Selton Mello, Quando o Tempo Cair. Adoro o Selton, mas não gostei muito do filme dele e até briguei com o Alessandro Giannini, que preferiu Quando o Tempo Cair – até aí, tudo bem –, mas resolveu achar que o outro era uma m… e aí fui à luta em defesa do Beijo de Sal. O filme teve, pode-se dizer, uma recepção gélida em Gramado. A crítica toda torceu o nariz. Até me diverti com a Flávia, dizendo que Fellipe tinha tudo que crítico de cinema não gosta – é bonito, talentoso e ainda cursou cinema nos EUA, o que só pode significar que é ‘colonizado’. Brincadeira à parte, a história do sujeito que sofre a má influência de um amigo, durante uma temporada na praia com a namorada, me evocou um filme antigo do Dino Risi, do qual gosto muito, Aquele Que Sabe Viver (Il Sorpasso), no qual o boa-vida Vittorio Gassman leva à destruição o jovem Jean-Louis Trintignant. Tenho a maior adoração pelo Risi, o Antonioni do humor, que transforma a análise do vazio existencial em tema de comédia. Nunca me esqueci de um filme dele com Enrico Maria Salerno, L’Ombrellone, lançado no Brasil com o título babaca de Férias à Italiana. Tem uma cena em que Salerno está na praia com a mulher e a Sandra Millo deixa a areia escorrer pelos dedos e engrena uma conversa sobre o tempo que passa. Sempre achei aquilo, pelo inusitado e pela intensidade, uma coisa de gênio. De volta ao Fellipe, num breve encontro com ele, em Gramado, sugeri que visse o filme de Risi, que ele não conhecia (mas saiu em DVD). Não sei se o Fellipe seguiu minha indicação. Gostei, de qualquer maneira, de saber que ele vai a Sundance com O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, e Acidente, do Cao Guimarães e do Pablo Lobato. Flávia Guerra está apostando que 2007 será o ano do Brasil em Sundance. Tomara que seja, embora eu, agora, esteja mais interessado em saber como será o Brasil na Berlinale. O Festival de Berlim começa dia 8 de fevereiro e, numa questão de dias, teremos o anúncio de sua seleção. Um passarinho me contou que este ano serão quatro filmes brasileiros em Berlim, incluindo um na competição. Qual? Ou quais? Estou ‘nos cascos’ para saber.