Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Borges no cinema

Cultura

Luiz Carlos Merten

25 Novembro 2007 | 19h09

Peraí, Alessandro, que eu prometo falar sobre ‘O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford’, mas me poupa do comentário do meu amigo Rubens Ewalkd Filho, que diz que é um filme de arte, não um western. Digamos que é um western e um filme de arte, e a dupla classificação, por causa do clima especial, também poderia ser aplicada, quem sabe, a ‘Shane’ (Os Brutos também Amam), de George Stevens, que eu amo de paixão. Mas agora quero falar, sabem do quê?, do evento que o Instituto Cervantes dedica a Jorge Luís Borges. É curioso, mas eu cheguei a Borges por uma via muito particular, depois de ler outro erudito argentino que eu acho que nunca ninguém relacionou a Borges, mas, para mim, os dois têm muito a ver. Estou falando de Ricardo Güiraldes e seu ‘Dom Segundo Sombra’, que Manuel Antin verteu para o cinema. Não sei se Sam Peckinpah alguma vez leu Güiraldes, mas o Oeste crepuscular de seus grandes filmes (‘Pistoleiros do Entardecer’, ‘Meu Ódio Será Sua Herança’, ‘Pat Garret e Billy the Kid’) se assemelha muito ao crepúsculo da cultura dos ‘gáuchos’, que o escritor argentino documentou por meio da saga de Don Segundo Sombra. É um livro escrito com todo rigor e nunca me esqueci da última frase – ‘Me fui como quién se dessangra’ -, que diz muito mais do que qualquer tradução, ou tentativa de interpretação. Não dizem que existem fotos que valem por dez mil palavras? Pois é – existem frases que, pela exatidão, dizem mais do que tudo. Borges, como Güiraldes, tinha essa exatidão. Acho ‘A Intrusa’, de ‘El Aleph’, um conto perfeito, do qual não se pode tirar (nem acrescentar) uma frase. Dizem que Gustave Flaubert era obcecado pelas palavras, procurando horas, dias, meses, pela palavra certa. Borges me dá essa impressão. E a sua riqueza de significados! Peguem ‘A Intrusa’. Dois irmãos atraídos – e divididos – pela mesma mulher. Toda civilização judaico-cristã, desde Abel e Caim, cabe nessa história que um argentino radicado no cinema brasileiro, Carlos Hugo Christensen, verteu para o cinema. O filme é bem feito, mas não bom. Christensen, que entendia seu compatriota, cercou-se de cuidados, mas exagerou na beleza da fotografia e ela, mais do que a personagem de Maria Zilda Bethlem, termina sendo a intrusa desse relato que, para ser fiel ao texto, teria de ser mais seco, duro, exato. O evento do Instituto Cervantes traz diversos filmes baseados em Borges, ou a ele relacionados, como ‘Um Amor de Borges’, de Javier Torre, filho de Leopoldo Torre Nilsson. Outro desses filmes é justamente ‘Dias de Ódio’, que o próprio Torre Nilsson realizou em 1954, baseado em ‘Emma Sunz’, contando a história da vingança de uma mulher. Quero ver se vejo esse filme, que é um dos que não conheço, na extensa filmografia de Torre Nilsson, o mais famoso diretor argentinoo dos anos 50 – e, como o próprio Borges, os críticos diziam que ele era alienado, por sua vinculação à cultura européia (a literatura inglesa, fonte de Borges, o cinema de Bergman, referência de Torre Nilsson). Sei, não, mas acho curioso que este evento dedicado a Borges ocorra justamente na semana de outro evento, Venezia Cinema Italiano 3, que, entre outras coisas, homenageia Bernardo Bertolucci. Ele recebeu um prêmio especial pelo conjunto da obra no recente Festival de Veneza e o filme de Bertolucci escolhido para a homenagem é ‘A Estratégia da Aranha’, baseado no ‘Tema do Herói e do Traidor’, de quem? De Borges e eu acho que é a melhor adaptação de obra do escritor para o cinema. Isso me leva a crer que o evento Borges do Instituto Cervantes, por mais imnportante que seja, está deixando a desejar no cinema. Não tem Bertolucci e não tem Christensen. Aliás – estou falando em função do que vi no Guia do Estado. Olhei rapidamente e não vi nenhum desses filmes. Se o evento continuar além dessa semana e incluir ‘A Intrusa’ e ‘A Estratégia da Aranha’, vou ter de me desculpar.