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Luiz Carlos Merten

23 Fevereiro 2007 | 13h19

Meu querido blog… Poderia começar assim, como um diário, meu primeiro post de hoje. O dia é hoje importante para mim. A importância deve-se ao fato de que minha filha Lúcia está de aniversário. Meus colegas Dib Carneiro Neto e Regina Cavalcanti vivem tirando sarro deste meu ‘gauchês’. Dizem que ‘estar’ de aniversário é coisa lá do meu País, o Rio Grande do Sul. Que aqui, em terra de civilizado (é o que eles dizem), as pessoas ‘fazem’ aniversário. Lúcia faz aniversário, portanto. Está em Florianópolis, curtindo a praia dos Ingleses, com o Érico, meu genro. (Agora virou diário mesmo.) Um beijo, filha. De manhã cedo recebi um telefonema de Leila Reis, que havia olhado a capa do Caderno 2 e ligou para comentar que eu não havia gostado de Borat. Disse que me diverti, que achei legal e ela retrucou – ‘Mas está aqui que é grosseiro, vulgar e de mau-gosto’. É verdade mas se esses três adjetivos no passado poderiam liquidar com qualquer filme, hoje é possível gostar de Borat por ter a coragem de ser politicamente incorreto numa cultura que tem sido banalizada pela correção. Já escrevi aqui sobre Borat, logo que vi o filme com Sacha Baron Cohen em sua estréia nos EUA. Estava em Nova York fazendo não me lembro mais qual junkett e fui ver, no mesmo dia, Borat e A Conquista da Honra. Quase tive um troço chorando no final do filme do Clint, com o personasgem maravilhoso daquele índio que me despedaça o coração. A americanada me olhava na saída da sessão como se eu fosse um leproso, sei lá – imagine: manifestar uma emoção daquela no cinema. Em Borat, pelo contrário, quase morri de rir e a platéia também ria, mas, na saída, era evidente o mal-estar daquelas pessoas, que se sentiam incomodadas com a caricatura da vida americana feita por Sacha Baron Cohen, por meio de seu repórter do Casaquistão, Baron Sagdiyi. Caricatura? Pode até ser que exista alguma deformação – uma lente de aumento – para encarar os problemas sociais e políticos dos EUA, sob Bush filho, na atualidade. Nem toda a ‘América’, como eles dizem, é aquilo. A América urbana e sofisticada, as grandes cidades como Nova York e Los Angeles, não são, mas a América profunda, a que apóia (ou apoiava; ele anda perdendo muito espaço) Bush, esta é como a caricatura do filme. As cenas do produtor se masturbando no banheiro com a foto de Pamela Anderson (e a reação que provoca em Borat), a do repórter que vai à loja de armas em busca de uma arma para matar judeus (e o vendedor que lhe diz qual ele, pessoalmente, escolheria), tudo aquilo é tão absurdo e é tão horrível que a gente ri do grotesco e só então se dá conta de que o horror, no fundo, é real. Não sou louco de achar que Borat é um grande filme. É muito desigual, com aquela estrutura episódica, que trata as cenas (ou as piadas…) como esquetes, a exemplo da TV, onde surgiu o personagem. Mas a figura física de Sacha Baron Cohen é muito expressiva e existem momentos geniais. Na quarta que vem, chega às locadoras outra comédia, Ricky Bobby a toda Velocidade, também com ele (e Will Ferrell), que a Sony achou que não dava para lançar nos cinemas e mandou diretamente para DVD. Lá, as piadas infames são de gays. Filmes como esses seriam impensáveis, anos atrás. Você pode achar que o cinema mudou, ficou pior, porque esses filmes estão aí. Pode lamentar a grosseria e a deselegância. Manifestar nostalgia pelos velhos, tipo Chaplin, e os intermediários (que ainda estão na ativa) como Blake Edwards. Na verdade, não foi o cinema que mudou para pior. O mundo, tenhamos coragem de dizer, foi que mudou e o cinema apenas reflete a doideira, com uma liberdade (ou uma permissividade) que o Código Hays não permitia no passado.

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