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Cultura » Boorman na Amazônia

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Luiz Carlos Merten

08 Novembro 2007 | 16h14

Falei há pouco no filme de Jean-Jacques Annaud ‘Era Uma Vez Dois Irmãos’ e disse que seria uma das boas coisas do Festival de Manaus poder ver o filme numa telona, projetado em praça pública. Mas disse também que seria uma das duas boas coisas em Manaus, o que é até irresponsável de minha parte, porque não olhei a programação – vi só essas chamadas – e pode ter muita coisa boa mais. Mas, enfim, vamos ao que considero a outra atração – John Boorman vai reencontrar em Manaus, 22 anos depois, a atriz que lançou em ‘A Floresta de Esmeraldas’, isto é, Dira Paes. Lembro-me que, quando o filme estreou, a crítica brasileira caiu matando, mas o filme tem defensores em todo o mundo, sendo considerado, fora daqui, um dos melhores exemplos do cinema ‘panteísta’ de Boorman e a expressão do tema do paraíso perdido que compõe a essência de sua obra de autor. Era muito jovem quando assisti a ‘À Queima-Roupa’, em pleno lançamento, e o filme me produziu forte impacto pelo diálogo entre o cinema hollywoodiano de gênero e um modelo mais europeu, que seria, ou é, o cinema de Alain Resnais, com seus temas do tempo e do espaço, da memória e do esquecimento. Na época, outros diretores de Hollywood andavam assimilando as lições de Resnais sobre o imaginário e o tempo e eu achava muito bacanas filmes como ‘Um Caminho para Dois’, de Stanley Donen, com Albert Finney e Audrey Hepburn, e ‘O Homem Que Odiava as Mulheres’ (The Boston Strangler), de Richard Fleischer, com Tony Curtis. Não gostei tanto de ‘Amargo Pesadelo’, mas cenas do filme me marcam até hoje – o duelo de banjos – e a idéia de que o retorno à natureza pode liberar a selvageria humana é perturbadora (e também discutível…), para dizer-se o mínimo. Detestei ‘O Exorcista 2 – O Herege’, achei ‘Zardoz’ um porre e confesso que até ‘Excalibur’ me pareceu meia-boca, embora tenha achado interessante uma entrevista do próprio Boorman, em que ele dizia que, ao pesquisar sobre o trângulo Arthur/Guinevere/Lancelot, deu-se conta de que havia vivido uma situação similar em casa, na infância. Isso leva ao filme do diretor de que mais gosto – ‘Esperança e Glória’, em que ele se debruça sobre a própria infância, lembrando a ameaça nazista que pairava sobre Londres, durante a 2ª Guerra. Era bonito (e triste) aquele triângulo formado por sua mãe, o pai e um amigo dele, e magnífica a cena em que o garoto estoura de euforia e agradece a Hitler por suas ameaças de bombardeio, que o liberam das aulas, na medida em que as escolas, por segurança, deixam de funcionar. Não gosto muito de ‘Muito Além de Rangum’ nem daquele filme dele com Juliette Binoche e Samuel L. Jackson sobre o apartheid, mas achei ‘O General’, com Jon Voight, bem bom. Há, no cinema de John Boorman, um pessimismo profundo que nasce de sua crença de que o homem não é apenas o lobo do homem, mas também o destruidor da natureza. Imagino que um festival na Amazônia seja o lugar ideal para o Boorman soltar o verbo para falar, como artista e como cidadão, sobre ecologia, ou melhor, desequilíbrio ecológico. E ele vai se surpreender, com certeza, ao reencontrar a Dira, que filmou jovenzinha e virou esse mulherão que ainda se dá ao luxo de ser uma das grandes atrizes de cinema deste País. Não apenas uma das grandes atrizes, mas uma das raras formadas pelo próprio cinema, já que a Dira só mais recentemente conseguiu se impor também na televisão, que aumentou sua popularidade, mas o talento e a beleza já vinham de antes, dos numerosos filmes que ela fez.