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Luiz Carlos Merten

05 Dezembro 2007 | 13h04

Fui ontem à festa de fim de ano de Margarida Oliveira, a Margô, cujo escritório representa o Espaço Unibanco, o Arteplex, a Mostra… Lá estavam Leon Cakoff, Adhemar Oliveira e um monte de gente que eu não via há tempos. Fiquei sabendo – de cocheira, como se diz – de algumas histórias sobre o recente Festival de Brasília. Enfim, comi, bebi e, como já estava cansado por conta da viagem de volta de Los Angeles, desmaiei ao chegar em casa e acordei – sexto sentido – na hora em que tinha uma entrevista marcada, agora de manhã, por telefone, com Robert Guédiguian. Vou poupar vocês dos percalços que tive de enfrentar. Havia deixado o número de telefone no jornal, o que me levou a mobilizar meio mundo (minhas amigas telefonistas, inclusive – elas me agüentam ligando a cobrar de todo lugar do mundo), até conseguir ligar, enfim, para Guédiguian, que já me esperava. Foi muito legal. O filme é ‘Armênia’, que estréia na sexta-feira, e o Guédiguian me contou a gênese – como e por que foi à terra de seus ancestrais para decifrar o mistério da cultura (e da identidade) armênia. Vocês vão poder ler sobre isso na sexta, no ‘Caderno 2’, mas tem outros aspectos da entrevista que achei legais e me interessa antecipar. Guédiguian é autor de um cinema, como se diz, social e político. Surpreendentemente para muitos coleguinhas brasileiros, que acham que um cara com esse perfil deve vomitar quando se fala em blockbusters, Guédiguian me confessou que gosta de cinema, em geral, e não dispensa ‘Superman’ nem o ‘Homem-Aranha’, quanto mais não seja porque, como diretor que trabalha com a linguagem, ele precisa se manter informado sobre técnica e tendências. Admiradores de Ken Loach – ele e eu –, falamos mal da crítica de direita, que tende a achar que o autor de ‘Ventos da Liberdade’ e o próprio Guédiguian são ‘dinossauros’, comprometidos com o passado. Tenho a mesma convicção que ele – essa coisa de achar que a direita tem compromisso com a modernidade e a esquerda, ou o que sobrou dela, permanece ligada no passado é a maior falácia, quando não burrice. Vou até mais longe, e tendo a lembrar o tal do Johnson que dizia que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Essa tal modernidade, que não aceita críticas à globalização (e ao seu cortejo de misérias – fodam-se os pobres e os excluídos, é o que ‘eles’ acham, desculpem-me pela grosseria), isso me parece o moderno substituto da canalhice dos velhos ‘patriotas’. Em tempo – adoro alguns filmes de Guédiguian. ‘Marius et Jeannette’, ‘A Cidade Está Tranqüila’ – onde ele mostra que, ao contrário do título, Marselha está tudo, menos tranqüila –, ‘Marie-Jo e seus Dois Amores’ e ‘Os Últimos Dias de Mittérrand’, em que a morte do grande homem oferece um interessante contraponto ao homem comum que também está morrendo em ‘Armênia’. Guédiguian tem novo filme pronto. Chama-se ‘Lady Jane’ e, claro, é interpretado pela atriz-fetiche que ‘reina’ em seu cinema, Ariane Ascaride. É um filme de gênero, um noir, com todos os seus ingredientes (perseguições, crimes). O cenário – Marselha, a cidade que, no cinema do autor, nunca está tranqüila. Espero que a Imovision, que distribui ‘Armênia’ no Brasil, já esteja de olho em ‘Lady Jane’.