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Luiz Carlos Merten

19 Novembro 2007 | 10h17

Já confessei para vocês que não me interesso muito pelo que escreve a concorrência. Sinto muito , mas é assim. Em geral, sei o que os outros escrevem porque o pessoal do jornal comenta comigo, principalmente quando as opiniões são divergentes. Mas tem coisas que me atraem. Parece que eu tenho um radar – folheei outro dia a revista ‘Cinema’ e achei a entrevista de Jorge Peregrino, vice-presidente sênior da Paramount para a América Latina. No Festival do Rio, Peregrino fez uma intervenção muito interessante no seminário para discutir produção e distribuição. Até pensei em entrevistá-lo, mas fui deixando e… esqueci. Cinema fez a entrevista que eu queria ler. Eu próprio vivo dizendo que o mercado brasileiro é formatado para o produto estrangeiro, leia-se Hollywood, e é verdade, mas acho muito interessante o que diz o Peregrino. A participação de Hollywood no mercado brasileiro está estacionada em 80 milhões de ingressos. É preciso algo muito especial, os chamados filmes-fenômenos, para aumentar esse ‘share’. O que faz a diferença no mercado do País é o cinema brasileiro. Num ano bom, com números positivos para o cinema brasilreiro, o mercado explode. A participação brasileira caiu de 21% para 9%, apesar, como diz o Peregrino, de os ambientes de produção, distribuição e exibição terem melhorado bastante. Ou eu me engano muito ou o cinema brasileiro vira o próprio vilão – a velha oposição entre cinema de arte e de mercado, como se o primeiro não fizesse parte (não fosse um nicho) do segundo. Vejam que o Brasil tem um mercado de arte considerado muito forte, mas o filme de arte que faz sucesso é o estrangeiro – o francês, o dinamarquês, o coreano, não o brasileiro. Ainda não sei de ‘Mutum’ nem de ‘A Casa de Alice’, mas ‘A Via Láctea’ não foi nada bem, e é bom. Coutinho e João Moreira Salles são exceções –’Jogo de Cena’ e ‘Santiago’ foram (estão indo) bem e na relação custo/benefício (poucas cópias, bastante espectadores) são o que se pode chamar de ‘sucessos’, até por que são filmes de um perfil mais exigente, mas os ‘autores’ são consagrados e já têm seu público. Em Vitória, estava conversando com Marcos Didonet, do Festival do Rio e sócio da Total Entertainment, editor do livro ‘Cinco Mais Cinco’, e ele me passou um dado muito interessante. A questão do patrocínio está formatada de um jeito no cinema brasileiro que cria uma situação exdrúxula. Isso foi o que deduzi, não o que ele me disse. Os filmes de autor não precisam se preocupar com o mercado porque, afinal, já foram pagos e todo mundo sabe que não vão dar dinheiro – o patrocinador já ligou sua marca, deduzindo do imposto de renda e, com sorte, ganha retorno em prestígio. Presumo que o diretor também cobre o seu cachê, porque, afinal, as pessoas precisam sobreviver. Agora pegue o filme de sucesso, como ‘Se Eu Fosse Você’, da Total. Foi o que misse o Didonet – o filme captou R$ 3 milhões e pouco no mercado, rendeu R$ 30 milhões. Os investidores receberam, sua grana de volta, os distribuidores e exibidores receberam a deles, o governo embolsou R$ 6 milhões e pouco de imposto de renda – o dobro do arrecadado, foi um bom negócio – e, no limite, quem menos ganhou foi a Total, que ainda reinvestiu seu lucro em novas produções. Ou seja, o filme de sucesso é penalizado, não premiado. É ou não é uma doideira? É uma cilada na qual a gente cai. A gente, pessoas como eu, que acreditam na justiça social. Porque se pode ver essa penalização como uma forma de justiça em favor dos sem-tela. Complicado, não?