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Luiz Carlos Merten

30 Setembro 2006 | 11h28

Existem coisas que surpreendem negativamente e outras que são descobertas de lavar a alma. Para ser honesto com Ricardo Van Steen, o diretor de Noel – O Poeta da Vila, e comigo mesmo,tenho de confessar que não colocava muita fé no filme. Achava que seria uma daquelas biografias meia-boca e tinha sempre como referência aquele Garrincha, que é ruim de doer. É uma regra básica que a gente às vezes esquece. É preciso ver todo filme de alma aberta, sem preconceito. O que me salva é que eu sou do tipo que se entrega. Fui ver Eu Me Lembro achando petulância do Edgard Navarro querer fazer um filme memorialístico no estilo do Fellini e me deslumbrei, virando o maior propagandista da obra. Também fui ver Noel com o pé atrás e durou, sei lá, um par de minutos. Quando ocorre a briga de Noel com Ismail Silva, logo no começo, aquilo me tocou de um jeito que eu não sei nem explicar. Flávio Bauraqui é um ator genial, mas a grande surpresa, a alma do filme do Ricardo, é o ator que faz Noel, Rafael Raposo. Uma nota em falso e ele poderia colocar o filme a perder. Rafael fez um trabalho incrível de voz, de expressão facial, para construir, sem trucagem, a deformidade na cara de Noel Rosa. Fez dele um homem sedutor e viril, malgrado a fragilidade física. E o Rafael expõe o conflito fundamental entre o cara de classe média que Noel era, na origem, e o malandro, o sambista que ele queria ser. Como Ceci, a dama do cabaré, Camila Pitanga é uma deusa. A cena em que Ceci e Noel vão para a cama, os dois mascarados por causa da tuberculose dele, é uma coisa como eu nunca vi. Na saída da sessão, fui abraçar o Ricardo e ele me disse que a Première é uma vitrine importante porque ele ainda não tem distribuidor. Um distribuidor para Noel, pelamor de Deus! E o Ricardo tem aquela grandeza do Navarro, o limite da modéstia e da confiança no próprio taco. Quando lhe disse que tinha gostado, ele respondeu – é só um primeiro filme, aindo tenho muito que aprender. Não não muitos os diretores, não apenas brasileiros, que têm coragem de dizer isso, tendo feito um filme como O Poeta da Vila, ainda por cima!

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