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Luiz Carlos Merten

12 Julho 2010 | 16h18

Se não é o filme mais depressivo da história de Hollywood, ‘A Última Sessão de Cinema’ é um dos mais, com certeza. Mas os personagens são tão reais, os atores tão maravilhosos – Ben Johnson e Cloris Leachman ganharam o Oscar de coadjuvantes e poucas vezes os prêmios foram tão merecidos –, a fotografia em preto e branco (de Robert Surtees) tão esplendorosa que a gente nem se dá conta da desgraceira, só quer ver o que vai ocorrer com aquelas pessoas em Anarene, a cidadezinha do Texas em que os adolescentes Timothy Bottoms, Jeff Bridges e Cybill Shepherd dão adeus às ilusões e já ingressam desesperançados na idade adulta. Intrigas, adultérios, solidão. O Texas épico aparece fugazmente na tela do único cinema, que, por sinal, está fechando (e exibe as imagens gloriosas de John Wayne em ‘Rio Vermelho’, de Howard Hawks). Anerene é a imagem da desolação, com o vento, a poeira e aqueles tufos de grama que tornam as ruas ( e os habitantes) ainda mais tristes. Citei outro dia a cenas da tia-avó tentando partir em ‘Canção da Estrada’, de Satyajit Ray, como ‘rasga coração’, mas o que dizer então do desabafo de Cloris Leachman, a mulher casada com quem Timothy Bottoms teve seu affair? Cloris nunca foi bonita, mas Bogdanovich a desglamourizou e enfeiou ainda mais. Não existe desabafo mais triste que o dela ao se descobrir/sentir traída pelo jovem amante. ‘A Última Sessão de Cinema’ está para completar 30 anos. Hollywood mudou muito nas últimas décadas. Duvido que hoje alguém – estúdio ou produtor indie – quisesse bancar um filme daqueles. O modelo hoje da produção independente hoje é ‘Precious’, Deus me livre (apesar das atrizes serem muito boas). Infelizmente, de tanto repetir que todos os bons filmes já haviam sido feitos (por seus mestres), Bogdanovich terminou por se convencer disso. Ele mudou o tom e passou a emular seus velhos. O hawksiano ‘Esta Pequena É Uma Parada’, com Barbra Streisand, e ‘Lua de Papel’, com pai e filha na vida (Ryan e Tatum O’ Neal) repetindo os papéis na ficção, marcaram de alguma forma um comprometimento. O primeiro tem aquela gag genial – a corrida de carros na rua e os sujeitos que vão atravessar carregando um vidro ou espelho –, o tom é tão demodê que se torna cativante no segundo. E aí veio a débâcle. Apaixonado por ‘A Gata e o Rato’, Bogdanovich fez dela a estrela de dois filmes horrorosos, ou que assim pareceram (‘Daisy Miller’, adaptado de Henry James, e ‘Amor, Eterno Amor’, o musical mais antimusical do cinema). O casamento não resistiu, mas depois o sucesso de Cybill na TV, na série ‘A Gata e o Rato’, mostrou que o problema talvez não fosse ela, mas o marido (e a forma como a via). Bogdanovich seguiu uma carreira ziguezagueante. Tentou mudar o tom com ‘Marcas do Destino’, que deu a Cher o prêmio de melhor atriz em Cannes. Voltou a Anarene, em ‘Texasville’, recolhendo os cacos dos personagens de ‘A Última Sessão’, mas o filme não ‘aconteceu’. O pior ainda estava por vir. Bogdanovich se envolveu com Dorothy Strattgen, a coelhinha de ‘Playboy’ que foi assassinada pelo marido (e Bob Fosse fez seu pior filme,. ‘Star 80’, sobre o assunto). Bogdanovich escreveu um livro sobre Dorothy, após a morte dela. Comparou-a um unicórnio (a pureza), chamou-a de ‘Afrodite’. Foram amantes durante cinco meses e, ao mesmo tempo em que a idolatrava, ele sabia que Dorothy estava, profissionalmente, disponível para orgias com VIP’s na mansão de Hugh Heffner, que foi onde (e como) a conheceu. Após o assassinato – Bob Fosse não o poupa em seu filme, mesmo usando um nome fictício –, Bogdanovich tomou sob sua responsabilidade a educação da irmã mais jovem de Dorothy, então uma menina de 12 ou 13 anos. Quando ela adquiriu a maioridade, casaram-se. Tudo perfeitamente normal ou morbidamente psicanalítico, meio Woody Allen (não lembra?), depende do seu gosto, ou avaliação. O diretor acabou, o ex-crítico voltou à ativa e teve um último lampejo. Bogdanovich escreveu ‘Who the Hell Made It’, um volumoso compêndio de quase 900 páginas com longas entrevistas de diretores, exatamente 16, a quem os filmes (e os cinéfilos) devem muito. Bogdanovich sempre foi considerado o campeão da antipatia. Os colegas críticos o detestavam porque, nos anols 1960, quando era moda incensar Antonioni e Godard, ele insistia na grandeza dos primitivos norte-americanos. Diretor, os colegas também o detestavam porque, por volta de 1970, ele tinha tudo – prestígio, dinheiro, mulheres. Sua imagem é de loser. Tudo teve, muito perdeu. No limite, sempre achei Bogdanovich mais fascinante como ‘personagem’ (mesmo gostando de seus primeiros filmes).