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Luiz Carlos Merten

12 Julho 2010 | 15h15

Devo ao Rodrigo o post que ele me pediu sobre Peter Bogdanovich, pegando carona no texto sobre ‘Na Mira da Morte’, mas antes quero falar do jogo de ontem, que vi no Anhangabaú. Havia ainda mais gente tranqueira do que no sábado, mas mesmo achando a final da Copa meia boca, confesso que torcia pela Espanha. Nunca duvidei de que a Fúria fosse perder – o polvo não ia errar –, mas na verdade aquele futebol me passes me ofereceu alguns dos meus mais belos momentos nesta Copa. Achava que era só um problema de finalização e o gol salvador ia surgir. Passou-se o tempo regulamentar e ele não veio. Tive de pegar um táxi e correr para o Sesc Pinheiros, onde às 6 horas começava o ‘Macbeth1’ de Aderbal Freire Filho. Cheguei já no segundo tempo da prorrogação, o Sesc estava tomado pelo público que assistia ao jogo no saguão, pelo telão. Cheguei acho que aos 7 ou 8 minutos, faltava pouco para encerrar (e ir para os pênaltis), quando dos pés de Iniesta surgiu o gol que esperava. O grande cara desse jogo foi o goleiro, Casillas e só depois da peça foi que vi o beijo dele na namorada jornalista, que o entrevistava. Meu lado romântico vibrou com aquele fecho para a Copa da África do Sul. Bye-bye e voltemos a Bogdanovich. Como ele bom, ou parecia bom, no começo de sua carreira. Como crítico, Bogdanovich se tornou conhecido – e respeitado nos EUA – defendendo os velhos de Hollywood, não apenas os Ford, Hawks e Lang, mas também outros menos valorizados, como Alan Dwan, que ele amava. Um dos melhores livros de cinema que tenho é o dele com (e sobre) John Ford, repassando com o diretor os filmes, um a um, e antecipando sua entrevista com a set visit a ‘Crepúsculo de Uma Raça’ (Cheyenne’s Autumn), no Arizona. Puta livro bom. Completa-se com o documentário ‘Directed by John Ford’, de 1971, quando ele já havia feito ‘Targets’, apadrinhado por Roger Corman. Michael Moore fez toda aquela sensação ao realizar ‘Tiros em Columbine’, investindo contra Chalton Heston como poeta-voz da Associação do Rifle dos EUA. Décadas antes, em 1968, Bogdanovich já havia se antecipado a Moore, em chave ficcional, questionando o tal direito dos norte-americanos de portarem armas de fogo. ‘Na Mira da Morte’ é ótimo e tem suspense infernal na sua segunda parte, quando o personagem de Tim Reilly já desencadeou o banho de sangue, primeiro matando a mãe e a mulher, depois disparando daquela torre e, finalmente, instalado por trás da tela do drive-in que exibe o último filme de um ícone do horror, o Orlov de Boris Karloff, que anuncia estar se despedindo do cinema porque o terror dos filmes ficou ingênuo face aos morticínios da realidade e, para prová-lo, Bogdanovich exibe cenas do último filme de Orlov, que na verdade são cenas de um filme de Corman com Karloff. ‘Na Mira da Morte’ era (é) muito bom, mas ‘A Última Sessão de Cinema’ é ainda melhor. Lembro-me do impacto que o filme me produziu quando o vi pela primeira vez, em Porto. Escrevia na ‘Folha da Manhã’ e publiquei um texto – ‘Na tela, a América está morrendo’. Já estava em ‘Na Mira da Morte’, mas Bogdanovich radicalizou em ‘The Last Picture Show’, pegando carona no livro de Marry McMurtry, que co-escreveu o roteiro com ele. Vou quebrar o post. Continuo daqui a pouco.