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Luiz Carlos Merten

22 Janeiro 2007 | 18h52

O que dizer de Humphrey Bogart que não seja repetir chavões nem insistir no já-dito? Há 50 anos, em janeiro de 1957, ele morria de câncer no esôfago e um milhão de doses de uísque, conforme escreveu em Cahiers du Cinéma, não me lembro se Truffaut ou o próprio André Bazin, que morreria naquele mesmo ano. (Tenho quase certeza que foi Truffaut, mas corrijam-me, se estiver errado.) Bogart virou um extraordinário personagem de si mesmo. Seu carisma atravessa gerações. Era filho de um advogado rico de Nova York, mas, em vez de seguir a carreira paterna, preferiu ser vagabundo. Foi expulso de todas as escolas e, aos 17 ou 18 anos, entrou para a Marinha, convencido de que participar de uma guerra poderia ser algo movimentado e excitante. Conta a lenda que uma explosão provocou aquela cicatriz no lábio que lhe dava um sorriso todo particular. Trabalhou com grandes diretores (John Huston, Howard Hawks, Joseph Mankiewicz, William Wyler, Raoul Walsh e Michael Curtiz), ganhou o Oscar (por Uma Aventura na África), mas foi sempre uma displaced person em Hollywood, que o tolerava porque ele já era um mito em vida (e seu mito não parou de crescer, depois). Com seu impermeável, o chapéu e o cacoete de passar a mão pelo lóbulo da orelha, ele criou um tipo de herói durão e complexo que inspirou até Godard (o gesto de Belmondo/Michel Poiccard de passar o polegar pelo lábio em Acossado). Mesmo quando não era o herói (o fugitivo de Horas de Desespero), passava uma idéia de força e certamente possuía um código de ética. O mais curioso é que ele era o primeiro a dizer que necessitava de pelo menos oito doses de uísque para ficar lúcido. Bogart criou personagens definitivos – detetives particulares como Sam Spade e Marlowe, o diretor de cinema de A Condessa Descalça, o aventureiro bêbado e um tanto excêntrico de The African Queen, mas o que ficou foi o Rick de Casablanca, que reencontra a mulher que ama e abre mão dela em nome da dignidade e da grandeza (dois artigos em desuso, na atualidade). Rick era para ser interpretado por Ronald Reagan, Ilsa também não era para ser Ingrid Bergman – e ela nem ligava muito para o papel. Estava muito mais interessada na Maria que ia fazer em Por Quem os Sinos Dobram, adaptado do romance do Hemingway. Tudo isso é história, mas é impressionante como Bogart ainda vive no nosso imaginário, imortalizado pelo cinema que o transformou num de seus ícones mais duradouros.