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Luiz Carlos Merten

25 Abril 2008 | 15h58

Há um charme discreto, um pouco obsoleto, no filme ‘Bodas de Papel’, a que acabo de assistir, agora pela manhã. O filme parece feito com cuidado, prudência, um certo academismo. A personagem pega a bolsa a chave, abre a porta do apartamento, caminha até o carro, entra. Tudo isso podia ser acelerado numa linguagem mais ‘moderna’, quem sabe por meio de elipses. Mas a verdade é que a última frase do filme, dita pelo Sérgio Mamberti, dá um sentido a toda essa prudência do diretor André Sturm – dono da distribuidora Pandora e do Belas Artes -, o que vocês só vão perceber quando ‘Bodas de Papel’ estrear ou na semana que vem, se estiverem no Recife, onde o filme vai participar da mostra competitiva do Cine PE. Essa maneira ‘antiga’ de filmar, também presente em certos filmes de Truffaut, termina por fazer sentido – conceitualmente, intelectualmente. E eu não quero ser invasivo, mas, enfim, André fez este filme e quem o conhece sabe que há alguns anos ele perdeu a mulher em trabalho de parto. Morreram ela e o bebê, uma coisa horrível, muito dolorosa. Sempre me perguntei como é possível sobreviver a uma coisa dessas, que me angustia só de pensar. ‘Bodas de Papel’ trata agora justamente da perda, como é possível se reconstruir após a morte de um ente querido. Nanni Moretti fez ‘O Quarto do Filho’ e ganhou a Palma de Ouro refletindo sobre isso e eu me lembro de um filme dos anos 60, de Alex Segal, com Jean Simmons, baseado num livro do James Agee. Chamava-se ‘A Death in the Family’ e no Brasil era ‘A Volta para o Adeus’. Jean perdia o marido, o que desestruturava a vida família e a história era contada do ângulo do filho – Agee criança, que, na idade madura, superou o trauma escrevendo um romance que Alex Segal filmou no tom requerido pelo material. Conhecendo a história toda, não sei se ‘Bodas de Papel’ me sensibilizou também por isso. Mas eu, que não havia gostado do longa de estréia do André, sobre a revolta da vacina, achei que neste ele dá um passo gigantesco. Tenho lá meus reparos, mas qual é a importância de citar um defeito aqui, outro ali? O elenco ajuda, como digo de certos filmes, nos comentários sobre TV. Walmor Chagas, Cleyde Iáconis e, principalmente, Helena Ranaldi – linda – e Dario Grandinetti. Ele é argentino, viril sem os excessos cafonas do macho latino. Não é um homem bonito, mas é sedutor. Forma uma bela dupla com a delicadeza de Helena. E, ah, sim, numa cena Dario anuncia que vai colocar um CD de um amigo dele. Entra ‘El Dia Que Me Quieras’, na voz de Gardel. Não sei de vocês, mas eu amo o Gardel e ‘El Dia Que Me Quieras’, o chamado tango-canção, é o supra-sumo do romantismo (como aquela música do Antônio Maria que a Dolores Duran cantava, como era mesmo? ‘A Noite do Meu Bem’ – ‘Hoje/ eu quero a rosa mais linda que houver…).